Debate - A Geopolítica das Mudanças Globais

O que têm em comum a geopolítica e o ambiente

Na manhã de 29 de julho, debatemos a geopolítica das mudanças globais e inquirimos o que têm em comum a geopolítica e o ambiente e de que forma os equilíbrios de poder e as dinâmicas do sistema internacional se relacionam com as alterações climáticas e a ecologia.

Esta Lisbon Talk contou com a participação de:

Miguel B. Araújo, líder mundial no estudo dos efeitos das alterações climáticas na biodiversidade, Prémio  Ernst Haeckel 2019 e Prémio Fernando Pessoa 2018.

Helena Freitas, Coordenadora do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra.

Bernardo Ivo Cruz, Administrador Executivo da Sociedade para o Financiamento do Desenvolvimento - SOFID

José Manuel Félix Ribeiro, Consultor da Fundação Calouste Gulbenkian.

O debate foi moderado por Leonídio Paulo Ferreira, Jornalista do Diário de Notícias.

 

 

Geopolítica e ambiente estão ligados de múltiplas formas, tendo essas relações um papel muito relevante nas transformações globais em curso.

 

As origens das mudanças climáticas têm a ver com três grandes e muito recentes acelerações: Uma delas foi o rápido crescimento populacional que se seguiu às revoluções industrial e verde e que levou a um aumento exponencial da demografia de mil milhões de pessoas no início do século XIX para 8 mil milhões, número este que deverá ser alcançado nos próximos anos. Uma segunda foi o aumento correlativo do consumo, que tem sido mais do que proporcional ao crescimento da população, à medida que as classes médias se expandem em países ricos e agora também em economias emergentes e em desenvolvimento, colocando enormes pressões sobre recursos como terra arável e água. A terceira está relacionada com os padrões de consumo, especialmente de combustíveis fósseis - carvão, petróleo e gás - que foram formados há centenas de milhões de anos e agora estão a ser esgotados a taxas crescentes.

O esgotamento de recursos e as consequências das emissões globais de CO2 já fizeram superar a tradicional divisão entre crentes e descrentes do papel significativo dos comportamentos humanos no aquecimento global.

Atualmente, a questão é mais sobre aqueles que acreditam que o que está a acontecer é um aquecimento gradual (tipo 1) e aqueles que veem o advento das mudanças abruptas do clima a acontecer (tipo 2). O degelo parcial da Gronelândia e a enorme perda de gelo no Ártico são exemplos frequentemente citados por aqueles que argumentam que já estamos a viver um evento climático do tipo 2. A geopolítica é bastante afetada pelas mudanças climáticas. A disponibilidade e a distribuição de água, o advento das ondas de calor e suas consequências sobre os seres humanos e a vegetação, a aceleração do aumento do nível do mar, a criação de novas rotas marítimas induzidas pelo derretimento das calotes de gelo, a exploração de recursos no Ártico e na Antártica são alguns exemplos do impacto das mudanças climáticas na geopolítica. A queda das taxas de crescimento demográfico (que estão a ocorrer desde a década de 1970) e os avanços tecnológicos oferecem soluções para alguns dos problemas; porém, as mudanças climáticas são, agora, as mudanças globais mais preocupantes.

A globalização nas suas várias facetas poderá continuar sujeita a controvérsias e disputas políticas. No entanto, a capacidade da nossa espécie para enfrentar grandes ameaças implica uma maior e mais reforçada cooperação entre as grandes potências, de modo a lidar com algumas das grandes questões. A concretização deste tipo de cooperação entre as grandes potências representa, no entanto, uma grande interrogação, face às disputas que estão a ocorrer. A atual tendência de aumento das desigualdades acelera os problemas causados pelas mudanças climáticas. O aumento da desigualdade acarreta grandes desafios, devido às contradições que se colocam entre, por um lado, a necessidade de mudar padrões de consumo e, ao mesmo tempo, as pulsões para o aumento dos níveis de consumo nos países emergentes e em desenvolvimento, onde se verifica o crescimento da urbanização e de classes médias que, naturalmente, desejam aumentar o respetivo nível de vida. A economia verde poderá ser a melhor resposta para esta equação. De facto, os combustíveis fósseis terão de ser substituídos por energias renováveis e outras formas de produzir energia sem aquecer o planeta. A cooperação em larga escala para enfrentar a fome e a emigração em regiões mais pobres, como o Sahel, precisa de ser encarada de forma mais decisiva e só pode ser tratada por coligações internacionais.

Os movimentos sociais e a juventude estão a tornar-se agentes importantes de mudança para conter as ameaças climáticas para as gerações presentes e futuras. Depois dos nacionalismos e do bilateralismo que dominaram o ambiente que conduziu a duas guerras mundiais no século XX, o advento do multilateralismo permitiu a construção do projeto europeu após a segunda guerra mundial. Infelizmente, uma grande mudança nas realidades e perceções de segurança ocorreu, principalmente após a guerra no Iraque no início do século atual, com o regresso progressivo do bilateralismo e da política do balanço de forças.

 

Continue a ler o resumo aqui: https://www.imvf.org/wp-content/uploads/2019/08/ltageopolitica.pdf

 

Veja aqui o vídeo do debate (em inglês):

 

 A Lisbon Talk foi organizada pelo Clube de Lisboa e a Sociedade Portuguesa de Ecologia (SPECO), com apoio da Câmara Municipal de Lisboa e do IMVF - Instituto Marquês de Valle Flor. O painel teve lugar no âmbito do 15º Congresso da Federação Europeia de Ecologia, que juntou em Lisboa centenas de especialistas sob o tema Embedding Ecology in Sustainable Development Goals.