Usar os líquenes como indicador à escala global - A entrevista a Paula Matos

A SPECO falou com Paula Matos, vencedora do primeiro lugar no Prémio de Doutoramento em Ecologia Fundação Amadeu Dias para conhecer melhor a sua ciência, o caminho que percorreu até ao Prémio e a sua visão da Ecologia. Actualmente, é investigadora no cE3c - Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Na base do seu doutoramento estão os líquenes, seres vivos muito simples, em que um fungo estabelece uma relação mutuamente vantajosa (simbiose) com uma alga verde ou cianobactéria. A simbiose permite que o fungo receba da alga os nutrientes que esta produz – através da fotossíntese –, criando em troca um ambiente favorável que permite à alga estar activa durante todo o ano.

 

SPECO: Qual ou quais as perguntas que estiveram na base do seu projecto de doutoramento?

PM: Os líquenes têm uma história longa como indicadores ecológicos dos efeitos dos maiores factores de alterações globais, tais como poluição, alterações no uso de solo, etc. No entanto, antes do meu doutoramento nunca tinham sido usados como indicadores de alterações climáticas, apesar de já estarem entre os primeiros organismos onde se observou uma resposta às alterações climáticas. Esta falha no nosso conhecimento e a necessidade actual de desenvolver indicadores ecológicos que possam ser usados á escala global impulsionou a grande questão do meu doutoramento. Aquilo que queríamos saber era basicamente como construir um indicador ecológico baseado na diversidade de líquenes que pudesse ser utilizado globalmente.

 

SPECO: Que resultados a deixaram mais satisfeita?

PM: Desenvolver um indicador capaz de ser utilizado à escala global é um desafio enorme. Acho que a maior satisfação foi quando conseguimos desenvolver uma framework (estratégia) para analisar conjuntamente os resultados das duas metodologias de amostragem de líquenes usadas mais frequentemente em todo mundo. Este resultado foi de certa forma o que nos permitiu dar o passo para o global, e o que nos possibilitou chegar até às Nações Unidas e fazer uma proposta informal para a inclusão deste indicador no seu conjunto de indicadores.   

 

SPECO: Qual ou quais os principais desafios que enfrentou? Como conseguiu superá-los?

PM: O maior desafio deste trabalho foi descobrir a forma de modelar e analisar a resposta dos indicadores à escala global. A forma de aplicar os indicadores não é a que esperávamos e foram muitas as tentativas e erro, muito desespero, até descobrirmos como fazer. 

 

SPECO: O que ficou por explorar?

PM: Ficou por explorar como aplicar o indicador quando temos outros fatores de alteração global (poluição por exemplo) a actuar em simultâneo. Só depois disso é que podemos fazer as guidelines (linhas orientadoras) para a aplicação do indicador à escala global. É nisso que estou a trabalhar agora.  

 

SPECO: Quais serão os próximos passos enquanto investigadora?

PM: Agora tenho que terminar estas coisas que ainda faltam e, em simultâneo tenho já um projeto para desenvolver um indicador semelhante para regiões polares. A prioridade em termos de carreira de investigação é publicar estas coisas pendentes e tentar conseguir outros projetos como PI (Investigadora Principal) para aumentar as probabilidades de conseguir um contrato de investigador, nacional ou uma Marie Curie. 

 

SPECO: O que a levou a concorrer ao Prémio?

PM: Eu diria que o incentivo mais forte para concorrer a este prémio veio da minha orientadora e dos meus colegas. Eles acreditavam que seria possível conseguir e foi isso que me motivou a concorrer. E ainda bem que o fiz!

 

SPECO: Que impacto espera que o Prémio tenha na sua carreira e no seu trabalho? 

PM: O doutoramento resulta de tanto esforço e dedicação que passa a ser uma parte de nós, ou no meu caso pelo menos assim foi. E nesse sentido o Prémio deixa-me muito feliz e orgulhosa e serve como um incentivo para continuar o trabalho, tendo em conta a dificuldade que é fazer investigação em Portugal. É de facto muito gratificante ver o nosso trabalho reconhecido, pela Sociedade Portuguesa de Ecologia. E ter um Prémio assim é algo que valoriza o currículo, e logo me valoriza profissionalmente. A juntar a isto, a divulgação que resulta do prémio permite que o nosso trabalho chegue a uma audiência mais vasta, científica ou não. Por um lado, suscita o interesse na sociedade sobre o que fazemos e para a sua importância, e por outro, informa outros investigadores potenciando trabalhos futuros. O Prémio acaba por ser um veículo de promoção do trabalho junto da sociedade em geral e da comunidade científica, o que tendo obviamente isso um retorno positivo no meu trabalho futuro e na minha carreira.

 

SPECO: O que tem a dizer sobre a investigação em Ecologia em Portugal?

PM: Eu acho que temos trabalho de grande qualidade em Ecologia actualmente em Portugal, em distintas áreas. Temos investigadores reconhecidos internacionalmente como de topo nas suas áreas, temos centros de investigação em ecologia reconhecidos também internacionalmente pela sua qualidade, como é o caso do cE3c onde eu trabalho, e por fim temos as publicações em jornais de alto factor de impacto a atestá-lo. Eu diria que o único entrave no nosso país a ciência de qualidade na área de ecologia, ou noutras, são as políticas de ciência. Eu acho que dada a nossa dimensão como país e dado o nosso contexto económico nós conseguimos evoluir bastante. O meu receio é que que todo este esforço e dedicação sejam postos em causa com políticas para a ciência e a investigação sem estratégia de futuro e sustentabilidade.  

 

 

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Nota: Fotos da autoria de Paula Matos e Carolina Lima.