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As relações e o funcionamento dos ecossistemas - A entrevista a Luís Silva

A segunda da entrevista da série que visa divulgar o trabalho e a visão dos ecólogos premiados no ano de 2018 pertence a Luís Silva, vencedor do segundo lugar no Prémio de Doutoramento em Ecologia Fundação Amadeu Dias. Depois do doutoramento associado ao CFE - Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra, Luís seguiu para o CIBIO - Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto, onde é actualmente investigador.

Como estão associadas as diferentes espécies num ecossistema? Quais as suas relações? Estas e outras perguntas foram o foco do seu estudo.

 
SPECO: Qual ou quais as perguntas que estiveram na base do seu projecto de doutoramento?

LS: A pergunta inicial do meu doutoramento, era qual seria o impacto de espécies de flora exótica, nomeadamente o eucalipto, na composição do ecossistema e alguns dos seus serviços. No entanto, com o passar do tempo e com novos estudos a serem publicados, foi necessário adaptar (bastante) as perguntas da tese. No final, acabei por me focar especialmente em interações ecológicas pouco estudadas.

 

SPECO: Que resultados a deixaram mais satisfeito?

LS: O que me deixou mais satisfeito com o trabalho que desenvolvi foi saber que ainda há fenómenos comuns e facilmente observáveis no dia-a-dia, ainda por explorar. Isto pode parecer um pouco estranho, mas num local como Portugal (e a Europa de uma forma geral), onde se realizam trabalhos de ecologia desde alguns séculos atrás, é incrível que ainda existam tantas coisas que podem ser facilmente exploradas sem necessidade de recorrer a grandes meios tecnológicos, ou pelo menos a tecnologia de ponta. Acho isto motivador para quem quer compreender melhor os nossos ecossistemas e nem sempre tem acesso a muito financiamento.  

 

SPECO: Qual ou quais os principais desafios que enfrentou? Como conseguiu superá-los?

LS: Penso que em qualquer trabalho há sempre dificuldades, maiores ou menores. No meu caso não tive dificuldades de maior para desenvolver o trabalho. O maior problema, principalmente durante o trabalho de campo, foi os dias terem apenas 24 horas. Mas como diz o provérbio, quem corre por gosto não cansa, por isso foram só alguns dias com poucas horas dormidas.

 

SPECO: O que ficou por explorar?

LS: Ficou imenso por explorar. Se anteriormente referi que fiquei bastante contente por ainda haver coisas para se explorar sem grandes meios tecnológicos, a verdade é que a tecnologia atual permite ter um conhecimento muito mais detalhado de todo o tipo de interações e serviços do ecossistema, mais ou menos exploradas. No doutoramento estudei alguns mutualismos pouco explorados, infelizmente a identificação taxonómica por exemplo de fungos foi bastante baixa por isso é difícil dizer que fungos as aves estão realmente a transportar. Há ainda uma série de questões relacionadas com a eficiência das aves como dispersoras tanto de pólen como de fungos que podem ser facilmente respondidos com experiências de exclusão. Há diversas questões para explorar futuramente.

 

SPECO: Quais serão os próximos passos enquanto investigador?

LS: Fui um dos sortudos que teve a sorte de conseguir um contracto de investigador no último curso da FCT, por isso nos próximos anos vou conseguir manter-me a trabalhar em ecologia. O que pretendo fazer vem precisamente no seguimento da pergunta anterior. Neste momento pretendo estudar com mais detalhe alguns serviços de ecossistemas nomeadamente dispersão de fungos e controlo de pragas recorrendo a técnicas moleculares. Para além disso tenho vontade de quantificar os serviços prestados, isto é para além de os descrever, quero conseguir dizer para o público geral que ter um ecossistema diverso e rico nos permite poupar "XX"€ em combate a pragas agro-florestais, ou que a polinização que nos é prestada gratuitamente se traduz em "XX" Kg de frutas, etc.

 

SPECO: O que o levou a concorrer ao Prémio?

LS: Inicialmente fui incentivado a concorrer por um dos meus orientadores (obrigado Rúben). Depois verifiquei os requisitos para concorrer e achei claramente que o pouco tempo necessário para efetuar a candidatura não era nada face ao potencial mérito de poder ficar entre os primeiros.

 

SPECO: Que impacto espera que o Prémio tenha na sua carreira e no seu trabalho? 

LS: Este prémio é bastante importante, a curto prazo, pela divulgação que tem entre pares em Portugal. É uma maneira muito boa para me dar a conhecer assim como o meu trabalho. A médio/longo prazo, não sei bem, mas penso que ter um prémio ao nível deste é sempre vantajoso para o CV de qualquer ecólogo.

 

SPECO: O que tem a dizer sobre a investigação em Ecologia em Portugal?

LS: Esta pergunta é bastante difícil. A ideia que tenho é que a investigação em ecologia em Portugal ainda está bastante dependente do financiamento da FCT. Nos últimos anos, parece-me que houve alguma estagnação na investigação devido a menos financiamento disponível, sendo que aparentemente a crise já passou e espero que as coisas melhorem. Por outro lado, acho que ainda há uma grande falta de comunicação entre o trabalho investigação feito por ecólogos e o público geral. Sem dúvida que esta pouca comunicação tem mudado para melhor de uma forma incrível nos últimos anos, mas mesmo assim penso que a disseminação atual não é suficiente. Acredito que apenas uma forte divulgação dos resultados de investigação com o público geral pode vir a levar a que seja possível obter novas fontes de financiamento para a investigação, quer de fundos privados quer de fundos públicos.

 

 

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Imagem fornecida por Luís Silva.