Dos cetáceos à gestão dinâmica dos oceanos - A entrevista a Marc Fernandéz

 

A entrevista a Marc Fernandéz, 3º classificado no Prémio de Doutoramento em Ecologia Fundação Amadeu Dias, finaliza a série dedicada aos vencedores. Marc realizou o seu doutoramento no cE3c - Centre for Ecology, Evolution and Environmental Changes, tendo estado também associado à plataforma MONICET - As empresas e o público ao serviço do conhecimento e conservação dos cetáceos dos Açores.

Ninguém melhor do que Marc Fernandéz para explicar o seu doutoramento:

 

 

 

SPECO: Qual ou quais as perguntas que estiveram na base do seu projecto de doutoramento?

MF: A pergunta de base do meu doutoramento foi: qual são os efeitos da resolução temporal na modelação do nicho ecológico de cetáceos? Poderia dizer que as sub-perguntas que surgem desta, seriam: como as diferentes espécies podem reagir de formas diferentes a variabilidade de resolução temporal; e podem os dados oportunistas com alta resolução temporal ser importantes para melhorar os resultados dos modelos?

 

SPECO: Que resultados a deixaram mais satisfeito?

MF: Encontrar que tanto a nível teórico como a nível prático (dados reais) a resolução temporal usada nos modelos é importante. Desta forma se o objetivo dum estudo é estudar com detalhe o nicho ecológico de alguma espécie de cetáceos a nossa recomendação é explorar diferentes resoluções temporais.

 

SPECO: Qual ou quais os principais desafios que enfrentou? Como conseguiu superá-los?

MF: Falta de financiamento, falta de conhecimento em R, quebrar certos preconceitos na modelação de nichos ecológicos de cetáceos. O primeiro desafio foi superado com imaginação, usando uma aproximação mais teórica. Superei a falta de conhecimento de R com muito estudo e horas, e com a ajuda dum dos meus co-orientadores. Enquanto aos preconceitos foi um desafio difícil, de facto o primeiro artigo que publiquei no Journal of Biogeography demorou um ano e meio em revisões, com revisões muito boas e outras muito mas ao mesmo tempo. Estas opiniões tão contradictorias foram difíceis de rebater, mas no fim com muita paciência e trabalho consegui publicar o artigo. 

 

SPECO: O que ficou por explorar?

MF: Faltou por explorar melhor o role das presenças e ausências, num meio dinâmico e com espécies altamente móveis. 

 

SPECO: Quais serão os próximos passos enquanto investigador?

MF: Tentar encontrar algum trabalho em ciência que esteja relacionado com o meio marinho e modelação do nicho ecológico.

 

SPECO: O que o levou a concorrer ao Prémio?

MF: Tive conhecimento do prémio o ano passado e achei que o meu trabalho tinha a qualidade suficiente como para concorrer. 

 

SPECO: Que impacto espera que o Prémio tenha na sua carreira e no seu trabalho? 

MF: Espero que seja um fator diferenciador no meu CV.

 

SPECO: O que tem a dizer sobre a investigação em Ecologia em Portugal?

MF: Acho que a ecologia em Portugal está surpreendentemente bem, tendo em consideração a pouca inversão em ciência. Existem equipas muita boas que produzem trabalhos com uma grande qualidade, equiparável a grandes equipas internacionais. Isto vêm a demonstrar a grande capacidade de trabalho e inventiva das equipas portuguesas. No entanto, é preciso uma maior inversão em ciência, especialmente solucionar a precariedade laboral dos investigadores, que acabamos por ser os mais prejudicados.

(Fotografia de capa da autoria da plataforma MONICET)