As áreas marinhas protegidas e a sua coerência ecológica - A entrevista a Inês Gomes

A entrevista a Inês Gomes, vencedora do terceiro lugar no Prémio de Doutoramento em Ecologia Fundação Amadeu Dias 2019

A SPECO falou com Inês Gomes, vencedora do terceiro lugar no Prémio de Doutoramento em Ecologia Fundação Amadeu Dias 2019. Inês é actualmente Consultora da Direcção Regional dos Assuntos do Mar nos Açores.

Nascida em Faro, mas com uma tendência natural para a insularidade, estudou e trabalhou nas ilhas Canárias, Cabo Verde, no frio da Lituânia, no calor da ilha de Wasini (Quénia) e reside actualmente no Faial, Açores. Licenciada em Medicina Veterinária pela Universidade Técnica de Lisboa, Mestre em Biodiversidade e Conservação Marinha (pelas Universidades do Algarve e Ghent), realizou a sua tese de Mestrado no sul do Quénia com os pescadores artesanais na reserva de Mpunguti. O seu doutoramento, integrado no programa europeu MARES Erasmus Mundus de Conservação do Ecossistema Marinho (Universidade do Algarve e Universidade de Ghent), focou-se na avaliação da coerência ecológica de Áreas Marinhas Protegidas (AMPs) utilizando múltiplas abordagens para analisar a localização, tamanho e espaçamento entre áreas, entre a Arrábida e as Berlengas.

Entuasiasta de temas de conservação e gestão do oceano, com particular interesse em AMPs e seus efeitos nas comunidades marinhas e humanas, trabalhou com pescadores, no sector do ecoturismo, em investigação e actualmente exerce funções junto da administração regional no aconselhamento técnico para a gestão e conservação dos ecossistemas. Gosta de viajar, de basket, jardinagem, do mar e de trabalhar com pessoas que valorizam a ciência, a criatividade e uma boa gargalhada. Actualmente, assume que passa também muito tempo em parques infantis.

 

SPECO: Qual ou quais as perguntas que estiveram na base do seu projecto de doutoramento?

IG: A pergunta base foi perceber se as áreas marinhas protegidas na zona costeira centro-oeste de Portugal Continental respeitavam critérios de coerência ecológica, em relação a localização, tamanho e espaçamento entre elas.

O projeto focou-se então no desenvolvimento e utilização de diferentes ferramentas para avaliar a coerência ecológica entre AMPs, integrando uma análise sobre conectividade marinha e uma ampla avaliação biológica da costa portuguesa, de modo a contribuir para a avaliação de redes de AMPs para apoio à decisão.

 

SPECO: Que resultados a deixaram mais satisfeita?

IG: A possibilidade de usar técnicas inovadoras e criativas para estudar a dispersão de larvas no mar, estudando a geoquímica larvar das conchas de mexilhão, e conseguindo assim seguir o trajecto destes animais no mar.  Esta é uma questão crucial na definição de novas áreas marinhas protegidas. Além disso, a nossa aposta no uso de drones para estudar a biomassa de comunidades intermareais deu resultados muito interessantes e promissores, pois permitiu estudos de larga escala, com grande resolução.

 

SPECO: Qual ou quais os principais desafios que enfrentou? Como conseguiu superá-los?

IG: Os principais desafios foram mesmo o recurso a múltiplas abordagens que não dominava... desde trabalhar com larvas microscópicas, ao uso de drones e análise de imagem, interpretação de modelos biofísicos de dispersão larvar, e produção de mapas de valor biológico....  Cada capítulo foi um mundo, onde tive que mergulhar de cabeça.

Consegui superar os desafios porque trabalhei com uma equipa incrível de profissionais e amigos. Nomeadamente, Henrique Queiroga, Laura Peteiro, Rui Albuquerque, Jesus Dubert, Rita Nolasco, Steven Swearer, Ann Vanreusel e Klaas Deneudt (Obrigado!).

 

SPECO: O que ficou por explorar?

IG: Ficou por explorar o uso do modelo biofisico desenvolvido, para diferentes cenários de gestão de áreas marinhas protegidas, bem como muitas potencialidades do uso de amostragens aéreas com recurso a drones, em sistemas intermareais.

 

SPECO: Quais serão os próximos passos enquanto investigadora?

IG: Continuar a trabalhar na incorporação de conhecimento científico no apoio à decisão, “descodificando” resultados científicos até ao nível da tomada de decisão e da sensibilização do público para os oceanos.

 

SPECO: O que a levou a concorrer ao Prémio?

IG: Achei que seria uma boa oportunidade para valorizar um projecto que me deu tanto prazer desenvolver e com o qual aprendi muito, bem como reconhecer as pessoas que nele participaram.

 

SPECO: Que impacto espera que o Prémio tenha na sua carreira e no seu trabalho?

IG: Este prémio de reconhecimento pela Sociedade Portuguesa de Ecologia, motiva-me a continuar a fazer bem o meu trabalho, e espero que seja um veículo de promoção do trabalho desenvolvido junto da comunidade científica e sociedade em geral.

 

SPECO: O que tem a dizer sobre a investigação em Ecologia em Portugal?

IG: A investigação em Portugal, em diversas áreas, e em ecologia em particular, está cheia de excelentes equipas, projectos e com resultados demonstrados. No entanto, esta excelência consegue-se muitas vezes pelas mãos de pessoas com grande mérito científico nacional e internacional, que para trabalhar tiveram que ir para fora cá dentro, e para fora, lá fora, que coordenam e dirigem equipas de investigação, sem nunca deixar a condição precária de bolseiro de investigação...

Assim, o futuro da investigação em Portugal tem necessariamente de passar pelo reconhecimento dos bolseiros como trabalhadores (em relação a direitos laborais e a um enquadramento justo perante a segurança social).

 

 

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