Que Estratégia de Reflorestação para Portugal?

floresta Coentral

 

Após os incêndios que deflagraram em Portugal durante este ano, (arderam > 450 mil hectares), importa olhar para o futuro e pensar de forma corajosa o que se irá fazer em toda a área ardida. Nada do que foi dito (desde 15 Outubro até hoje) indica uma estratégia definida para as medidas preventivas e estruturantes. Antes, enunciam-se proibições para replantar eucalipto, acções para combater incêndios ou mesmo a constituição de uma empresa pública para a gestão da floresta. Nenhum destes documentos menciona que floresta se pretende para Portugal nem, especialmente, que cuidados deverão existir para encarar as alterações climáticas. Existem projectos experimentais, liderados por associações várias, bem intencionadas, mas sem estratégia de investimento, de organização do espaço florestal ou de prevenção contra as alterações que afectam o globo.

Um dos maiores desafios que Portugal enfrenta é saber como investir de forma sustentável nestes sistemas sócio-ecológicos degradados para que sirvam não só o desenvolvimento social e a atracção de gente jovem, mas também a conservação e sustentabilidade de uma biodiversidade resiliente ao aumento de temperatura e à falta de água, capaz de fornecer retornos económicos. Independentemente das causas, o fogo é uma perturbação que possivelmente se tornará mais frequente, associado ao aumento de períodos de seca mais longos. Por isso é necessário saber cuidar a floresta. Mas isso só é possível se, em simultâneo, for alterada a sua valorização sócio-económica. A floresta é muito mais do que a madeira que se explora actualmente. Para além desta, que é necessária, há a chamada Mata Mediterrânica, onde se exploram os frutos, o pasto, o mel, a caça, os cogumelos, a diversidade de serviços ecológicos que esses ecossistemas encerram, fundamentais para a humanidade. A biodiversidade florestal pode também ter grande potencialidade de valorização para o turismo ambiental, tirando partido da beleza geo-morfológica das nossas paisagens.

Perante esta situação, a SPECO e seus associados propõem medidas de curto, médio e longo prazo, para salvaguardar a conservação do solo e a expansão oportunista das espécies invasoras, e promover a diversificação e conservação da floresta tendo em conta as alterações climáticas e a valorização sócio-económica do espaço rural. Complementa sobretudo o documento redigido por um grupo de investigadores independentes intitulado: “Pensar o país inteiro - Manifesto integral”.

 

Medidas de curto e médio prazo

 

I. Conservação do solo

  1. Evitar limpezas e formação de roços, que desequilibram ainda mais o solo
  2. A colocação de palha ou folhada pode facilitar a retenção de água, limitar a erosão, aumentando a matéria orgânica necessária para a melhoria da qualidade do solo.
  3. Para o solo ter capacidade de recuperar, é necessário dar tempo à regeneração natural das espécies que se encontram no banco de sementes, disponíveis para germinar após as primeiras chuvas.
  4. A monitorização da regeneração natural (germinação do banco de sementes ou rebentação das espécies lenhosas) é essencial. Caso se detectem espécies invasoras a prioridade deve ser a sua remoção, um pouco antes da primavera. Devem ser deixadas as espécies autóctones. Esta remoção é fundamental para se evitar a proliferação de invasoras nos terrenos queimados.

 

II. Reflorestação

  1. Apoio técnico e financeiro aos produtores afectados pelos incêndios:
    1. fileira do pinheiro-bravo, para realização de desbastes;
    2. fileira do eucalipto, para destoiça;
    3. para remoção de espécies vegetais invasoras que tenham surgido nos seus terrenos.
  2. Forte estímulo à constituição de pequenos viveiros regionais, para produção de plantas autóctones, locais, assegurando a diversidade genética das diferentes espécies, com vista a respeitar os seus limites de exploração e tolerância.
  3. Apoio técnico às organizações de voluntários para colheita de sementes ou ajuda à produção de plantas nos viveiros.
  4. Apoio técnico às organizações de voluntários e/ou escolas para a reflorestação.
  5. Estímulo à formação de parcerias para transferência de conhecimento, sempre com o apoio e participação de proprietários ou de associações de proprietários.
II.1. Florestas de produção
  1. Eucalipto - a reflorestação deve ser contida, como aliás já foi legislado. Mas mesmo nestes casos o seu padrão de distribuição à escala da paisagem deve ser implementado de modo a evitar extensas manchas contínuas de monocultura.
  2. Pinheiro-bravo - o pinhal de Leiria deve ser restabelecido, com gestão de linhagens seleccionadas tal como o era anteriormente. No resto do território, a sua mancha florestal deverá também ser re-equacionada, tanto no padrão de distribuição à escala da paisagem para evitar manchas contínuas, como à escala regional. O pinhal, no interior, tem subido até cotas que excedem os limites edafo-climáticos interessantes para a sua exploração. A diversidade genética é também muito baixa porque os viveiros apenas replicam clones, sem preocupação de assegurar diversidade de espécies.
  3. Não devia ser permitida a substituição de pinhal por eucaliptal numa lógica de compensação.
II.2. Floresta autóctone
  1. Apoio técnico-científico aos proprietários que queiram reflorestar com espécies autóctones (abertura de candidaturas e programas).
  2. Estímulo à promoção do bosque autóctone, numa lógica de associativismo florestal.
  3. Aumentar a capacidade dos viveiros regionais para a propagação de linhagens locais ou, pelo menos, regionais de espécies autóctones como as quercíneas, ou outras como castanheiros, pinheiro do alepo (muito resistente à secura e zonas degradadas), salgueiros, choupos e freixos, samouco e sorveiras nativas. O material a ser usado deverá ser de proveniência local, em especial de elementos emergentes e naturalmente seleccionados como mais resistentes a períodos de seca.
  4. Apoio técnico-científico para a distribuição das várias espécies acima indicadas que deve assentar na repartição dos diferentes óptimos edafo-climáticos.
  5. Apoio técnico-científico para os métodos de preparação do solo e instalação já que estes se devem basear nas características das espécies seleccionadas e focando a constituição de florestas heterogéneas, que no imediato maximizam a biodiversidade, incrementando-a ao longo do período de exploração.
  6. Estímulo à promoção de outras espécies lenhosas mediterrânicas como o medronheiro, alfarrobeira, urzes, entre outras, numa óptica de maior tolerância à seca, e elevada capacidade de resiliência e estratégia regenerativa.
  7. Estímulo ao associativismo entre proprietários e à transferência de conhecimento entre investigadores e os proprietários dos terrenos, à semelhança do que Espanha faz há muito.
  8. Estímulo à sociedade de conhecimento para o desenvolvimento de uma plataforma online que informe sobre a localização exacta, o estatuto de ameaça e a conservação de espécies e habitats (candidaturas e programas direccionados).

 

III. Valorização sócio-económica da nova floresta

  1. Para se alterar a paisagem florestal de monocultura para floresta de crescimento lento mas mais rica em biodiversidade, devem ser promovidos incentivos vários a nível da comunicação, formação e apoio financeiro.
  2. Participação e envolvimento das populações em todo este processo.
  3. Estímulo à formação e apoio constante de equipas interdisciplinares (investigadores, proprietários, industriais, comerciantes) para assistência a proprietários e associações na valorização e aproveitamento da nova floresta.
  4. Estímulo às associações de gestão florestal que, com o apoio de investigadores e técnicos especializados a nível municipal, saberão aconselhar o que plantar e como acompanhar.
  5. Fomento e apoio à constituição de fileiras económicas baseadas no aproveitamento dos produtos da floresta renovada.

 

Medidas de longo prazo

  1. Vigilância da conduta dos agricultores como promotores de pontos de ignição.
  2. Estímulo à formação das associações de gestão florestal para a utilização de fogo controlado como ferramenta de limpeza e renovação de pasto, com o apoio de investigadores especializados e bombeiros profissionalizados.
  3. Estímulo à formação das associações de gestão florestal para a avaliação e monitorização contínua do processo de reflorestação, com o apoio de investigadores e técnicos.
  4. Estímulo à formação de parcerias entre a sociedade do conhecimento e as associações de gestão florestal, numa óptica de intercâmbio e assessoria científica e experimental.
  5. Incentivo à fiscalização e regulamentação de viveiros de produção e comercialização de plantas autóctones e ornamentais, através da articulação entre a autoridade florestal e a autoridade fitossanitária.
  6. Incentivos estatais à formação de quadros técnicos, à difusão pela população da importância dos espaços florestais, ao desenvolvimento de programas nacionais sobre os ecossistemas florestais, ao financiamento de investigação básica sobre a biologia e ecologia das espécies.
  7. Estímulo à articulação livre e democrática entre a investigação e as políticas públicas. Todos devem poder participar na avaliação e monitorização dos impactos (a seguir às catástrofes humanas) e à subsequente reflorestação.
  8. Incentivo à criação de uma colecção de imagens LIDAR, imagens hiperespectrais, modelos digitais de terreno, fotos aéreas e inventários florestais nacionais, de livre acesso a todos os que queiram investigar os temas da floresta e dos fogos em Portugal.
  9. Incentivo à informação climática actualizada, com elevada resolução espacial e temporal, disponibilizada aos investigadores em diversos formatos, de forma pública.
  10. Estímulo aos investigadores para apresentação de modelos prospectivos que descrevam o comportamento da floresta.

 

 

Sócios participantes na redacção deste manuscrito:

Maria Amélia Martins-Loução (Presidente da SPECO, Prof. Universidade de Lisboa)

Cristina Máguas (Vice-Presidente da SPECO, Prof. Universidade de Lisboa)

Daniel Montesinos (Secretário da Direcção, Investigador do CFE, Universidade de Coimbra)

Susana Gonçalves (Vogal da Direcção, Investigadora do CFE, Universidade de Coimbra)

Graça Oliveira (Investigadora do cE3c, Universidade de Lisboa)

Manuel João Pinto (Investigador do cE3c, Universidade de Lisboa)

Cristina Branquinho (Prof. Universidade de Lisboa)

Alice Nunes (Investigadora do cE3c, Universidade de Lisboa)

Cristina Cruz (Prof. Universidade de Lisboa)

Helena Freitas (Ex-Presidente da SPECO, Prof. Universidade de Coimbra)

Elizabete Marchante (Investigadora do CFE, Universidade de Coimbra)

Hélia Marchante (Prof. Escola Superior Agrária, IPCoimbra; Secretária da Assembleia Geral da SPECO)