O valor da biodiversidade

Segundo Maria Amélia Martins-Loução, Presidente da SPECO, a "Biodiversidade pode referir-se a qualquer nível de variabilidade existente entre seres vivos, incluindo a diversidade genética dentro da mesma espécie, em espécies diferentes e ecossistemas.".

Há 27 anos, as Nações Unidas propuseram 22 de Maio como Dia da Biodiversidade, para homenagear a data de aprovação do texto final da Convenção da Diversidade Biológica. Mas falar em diversidade da vida é demasiado lato: sobre que tipo ou sistemas vivos se pretende chamar a atenção? Como se expressa e qual o valor? Para muitos, biodiversidade e natureza são sinónimos. Paisagens com diferentes tons de verde e castanhos, salpicada de flores e algumas aves a sobrevoar transmitem um sentimento de beleza, subjectivo e pessoal, que apenas se interioriza quando desaparece ou se modifica.

A arte de saber esquecer

"Importa não esquecer que a chamada crise ambiental não é apenas uma questão ecológica e dos ecólogos, mas também, e sobretudo, um problema social e de saúde pública." disse Maria Amélia Martins-Loução, Presidente da SPECO, ao Público.

Saber esquecer é uma arte que se cultiva, hoje em dia, na sociedade portuguesa. Esquecemos a ameaça de seca quando a chuva teima em cair. Esquecemos (ou ignoramos) que houve matas incólumes em 2017, porque nem se visitam. O esquecimento (ou indiferença) é natural perante o dia-a-dia que se leva, mas também porque a classe política nos ajuda a esquecer. Nada como cultivar a esperança de um “grande” aeroporto e do aumento de investimento estrangeiro no lítio ou o orgulho de mostrar uma agricultura moderna no Alentejo. À esperança e ao orgulho alia-se a afirmação do poder restaurador, que neutraliza os efeitos negativos da memória e da culpa. Assim, para que a consciência se liberte e o povo descanse cultivam-se e afirmam-se a prossecução de medidas de mitigação.

A “nossa” casa está a arder

Segundo Maria Amélia Martins-Loução, Presidente da SPECO, "as presentes propostas de “desenvolvimento” para o estuário do Tejo e do Sado são apenas alguns exemplos em como os interesses económicos e políticos atropelam a salvaguarda de zonas húmidas com estatuto de protecção.".

Sustentabilidade é, actualmente, um vocábulo “politicamente correcto” e o seu uso é generalizado, na sociedade, como sinónimo de comportamento comedido de consumo. Palavras vãs e vazias quando as acções não se coadunam com o que se apregoa. A sustentabilidade é uma característica dos sistemas naturais, onde as leis da natureza asseguram os fluxos de energia e matéria entre os diferentes compartimentos: solo, organismos vivos e atmosfera num ciclo harmonioso e equilibrado. A biodiversidade presente oferece elevada resiliência pelo estabelecimento de ligações e parcerias entre indivíduos da mesma espécie e de espécies diferentes, assegurando uma diversidade funcional sustentável. Mas a sustentabilidade dos sistemas naturais não é alcançada, apenas, por uma maior diversidade. Mais biodiversidade sem interacções entre organismos, antes com espécies oportunistas e competitivas, origina sistemas fragilizados pouco ou nada sustentáveis. A dificuldade está, pois, em saber gerir ecossistemas, sem conhecer ou ignorando as leis da natureza, mas com o objectivo de os preservar para que continuem a prestar serviços de que os seres humanos dependem, como a qualidade da água, do ar, a regulação climática, entre outros.

As leis da natureza e a sustentabilidade

Para Maria Amélia Martins-Loução, Presidente da SPECO, "As presentes propostas de “desenvolvimento” para o estuário do Tejo e do Sado são apenas alguns exemplos em como os interesses económicos e políticos atropelam a salvaguarda de zonas húmidas com estatuto de protecção."

"Sustentabilidade é, actualmente, um vocábulo “politicamente correcto” e o seu uso é generalizado, na sociedade, como sinónimo de comportamento comedido de consumo. Palavras vãs e vazias quando as acções não se coadunam com o que se apregoa. A sustentabilidade é uma característica dos sistemas naturais, onde as leis da natureza asseguram os fluxos de energia e matéria entre os diferentes compartimentos: solo, organismos vivos e atmosfera num ciclo harmonioso e equilibrado. A biodiversidade presente oferece elevada resiliência pelo estabelecimento de ligações e parcerias entre indivíduos da mesma espécie e de espécies diferentes, assegurando uma diversidade funcional sustentável. Mas a sustentabilidade dos sistemas naturais não é alcançada, apenas, por uma maior diversidade. Mais biodiversidade sem interacções entre organismos, antes com espécies oportunistas e competitivas, origina sistemas fragilizados pouco ou nada sustentáveis. A dificuldade está, pois, em saber gerir ecossistemas, sem conhecer ou ignorando as leis da natureza, mas com o objectivo de os preservar para que continuem a prestar serviços de que os seres humanos dependem, como a qualidade da água, do ar, a regulação climática, entre outros.

A tragédia da biosfera

"Está muito claro que o nosso futuro comum depende do modo como a sociedade interioriza este problema de redução das emissões como sendo de todos.

Em Dezembro de 1968, num trabalho editado na revista Science, o ecólogo Garret Hardin afirmou que o livre acesso de um recurso pelo povo leva à ruína do planeta. Esta metáfora, intitulada “Tragédia dos Comuns”, simboliza o relacionamento estrutural dos indivíduos que colectivamente desperdiçam um recurso ao subutilizá-lo. A sociedade usa e explora os recursos em seu benefício, como se o planeta fosse infinito. Este polémico ensaio de Hardin vem a propósito dos consecutivos alertas sobre os riscos que a Humanidade corre perante o cenário do aumento de temperatura acima de um limiar, fixado em 2°C. A última cimeira do clima em Katowice, Polónia, foi pródiga em nomear ameaças que as alterações climáticas produzem na biosfera e terminou com um “livro de regras comuns”, em que os países se comprometeram a reduzir a emissão de Gases com Efeito de Estufa (GEE). Esperemos que este comprometimento seja mais eficaz do que a assinatura do Acordo de Paris em 2015. Infelizmente, estas boas intenções não têm resultado já que, ao contrário do que era suposto, a quantidade de emissões aumentou nos últimos anos. No entanto, uma grande diferença entre a parábola de Hardin e a redução das emissões é o facto de este ser um problema climático global em que os indivíduos são as diferentes nações. Está muito claro que o nosso futuro comum depende do modo como a sociedade interioriza este problema de redução das emissões como sendo de todos, o que implica acções colectivas e envolvimento dos países a nível mundial.

Os desafios da Ecologia - a opinião de Maria Amélia Martins-Loução, Presidente da SPECO

"Por mais tecnologia que se desenvolva, devemos ter a humildade para reconhecer a incapacidade de resolver os problemas ambientais imediatos.

Em 2019, celebra-se o centenário da morte de Ernst Haeckel, biólogo alemão que definiu Ecologia como sendo o estudo dos seres vivos em interacção com o meio ambiente. E se antes existia uma visão muito naturalista da ecologia, ao pensar-se no Homem como parte integrante do ecossistema Terra, a definição tornou-se mais ampla e controversa: que seres vivos, que meio ambiente? Actualmente, ecologia é uma ciência integradora, que providencia dados e conhecimentos necessários para fazer face aos desafios dos objectivos sustentáveis das Nações Unidas. As equipas, interdisciplinares, são naturalmente compostas por biólogos, sociólogos, geoquímicos, físicos, matemáticos, geógrafos, antropólogos, que interpretam resultados complexos e aportam soluções práticas com base em conhecimento científico. Os ecólogos debruçam-se sobre a complexidade dos ecossistemas e por isso podem dar indicações correctas perante os desafios económicos e os problemas de saúde pública ligada ao ambiente. Mas, para que a sua mensagem chegue ao poder político e à sociedade, terão de aceitar o desafio de explicar de forma simples, mas clara, que a solução para muitos dos problemas da humanidade está no desrespeito da sociedade para com as leis da natureza.

Como é que o montado pode lutar contra as alterações climáticas?

"Uma das imagens de marca do Alentejo é o montado, muitas vezes, adornado por sombras majestosas de sobreiros ou azinheiras. Mas esta paisagem pode ser afectada pelas alterações climáticas. Afinal, o montado é um ecossistema que domina nas zonas semiáridas, onde a água disponível para as plantas já é limitada, o que torna estas áreas vulneráveis à desertificação. Portanto, Alice Nunes – do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (cE3c) da Universidade de Lisboa – quis perceber o que estava a acontecer no montado e observou as funções desempenhadas pelas plantas. É com elas que pretende declarar guerra às alterações climáticas."

As duas faces do azoto

 

Sabia que respiramos 78% de azoto? No entanto, não o sentimos nem utilizamos. Só algumas bactérias o podem converter em formas químicas, disponíveis para as plantas, que depois transferem para os animais, sob a forma proteica. Durante milhares de anos a agricultura esteve dependente de bactérias presentes no solo. Há um século, o processo Haber-Bosch, de produção industrial de fertilizantes, foi o rastilho da chamada revolução verde que assegura, hoje em dia, a sobrevivência de metade da população humana. Apesar dos inúmeros benefícios do azoto (ou nitrogénio) para a segurança alimentar, a utilização dos fertilizantes e a queima dos combustíveis fósseis liberta formas reactivas de azoto. A resposta dos ecossistemas a este excesso de azoto é um processo complexo, mas de custo elevado, para o ambiente e saúde pública.