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A arte de saber esquecer

"Importa não esquecer que a chamada crise ambiental não é apenas uma questão ecológica e dos ecólogos, mas também, e sobretudo, um problema social e de saúde pública." disse Maria Amélia Martins-Loução, Presidente da SPECO, ao Público.

Saber esquecer é uma arte que se cultiva, hoje em dia, na sociedade portuguesa. Esquecemos a ameaça de seca quando a chuva teima em cair. Esquecemos (ou ignoramos) que houve matas incólumes em 2017, porque nem se visitam. O esquecimento (ou indiferença) é natural perante o dia-a-dia que se leva, mas também porque a classe política nos ajuda a esquecer. Nada como cultivar a esperança de um “grande” aeroporto e do aumento de investimento estrangeiro no lítio ou o orgulho de mostrar uma agricultura moderna no Alentejo. À esperança e ao orgulho alia-se a afirmação do poder restaurador, que neutraliza os efeitos negativos da memória e da culpa. Assim, para que a consciência se liberte e o povo descanse cultivam-se e afirmam-se a prossecução de medidas de mitigação.

 

Há impactes negativos no ambiente com a construção da nova infra-estrutura no Montijo? Seguramente que surgirão soluções inovadoras contra o excesso de ruído ou de choques com aves. Irá haver perda de habitat para aves migradoras ou libertação de produtos tóxicos nos solos e na atmosfera? Nada disso terá importância quando comparado com a mais-valia no aumento de turistas a Portugal, em particular na região de Lisboa.

Portugal possui uma das maiores concentrações de lítio da Europa. Com esta concentração de “petróleo branco” espalhada por grande parte do território, claro que isso pode trazer um valor acrescentado à economia portuguesa. Saber tirar partido dum recurso natural é lícito e oportuno. A questão coloca-se quando a ambição e o apetite voraz tornam a oportunidade em ameaça. O problema é se essa exploração vai afectar toalhas freáticas, diminuir a quantidade de água disponível para as populações ou mesmo colocar em risco a integridade de reservas naturais. Seguramente que surgirão medidas de mitigação. Mas o que pesa mais? O valor actual de um bem ou a perda irrefutável dum património natural destruído e irrecuperável?

 

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