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A biodiversidade na base dos Serviços dos Ecossistemas e como ferramenta em Ecologia de Ecossistemas

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A Gestão Ecológica no Âmbito da Ecologia de Ecossistemas

De acordo com o que foi dito, a resiliência de um ecossistema perante as alterações globais (climáticas e outras) está directamente relacionada com os seus componentes e assim, com a sua biodiversidade (Pinho et al., 2009; Pinho et al., 2011).

A fragmentação e perturbação dos ecossistemas terão seguramente impactos significativos nos serviços que fornecem uma vez que alteram o balanço das espécies presentes e impedem a capacidade dos sistemas em armazenar nutrientes, sequestrar carbono e impedir a erosão do solo (Cruz et al., 2008; Cruz et al., 2011).

Face à natureza dinâmica e complexa dos ecossistemas e do conjunto de atividades humanas que ocorrem nos mesmos, existem limitações no seu uso. Existem mesmo alguns críticos ao uso da ecologia de ecossistemas como metodologias de gestão ecológica (Laplante, 2005). As maiores críticas vêm do facto da ineficiência da previsão e de modelos úteis a uma eficiente gestão ecológica. No entanto, os proponentes da gestão baseada nos ecossistemas reconhecem que nunca será possível entender completamente o funcionamento interno de um ecossistema, nem prever perfeitamente as consequências das ações de gestão (Laplante, 2005). Portanto, esta abordagem reforça a necessidade do desenvolvimento de sistemas de gestão que são "seguros a falhar, em vez de serem à prova de falhas", que se baseiam em princípios de precaução adaptativa dada a incerteza significativa sobre a evolução e compreensão da dinâmica dos ecossistemas presentes e futuros (UNEP/GPA 2006).

A ecologia de ecossistemas pode ser olhada como uma nova ciência, uma ciência de síntese e integração que transcende as fronteiras ortodoxas entre as ciências naturais e sociais e entre as ciências básicas e aplicadas. O mais importante é o pluralismo das abordagens que pode permitir o progresso científico. Por outro lado, o avanço das análises matemáticas e da modelação (Pinho et al., 2008), das novas tecnologias  de observação (Listopad et al., 2015) e o desenvolvimento de indicadores biológicos (Costantini et al., 2016) que nos permitem análises espaciais e temporais mais explícitas, podem ser usadas na construção de modelos conceptuais mais credíveis (Ribeiro et al., 2016). 

A pegada ecológica da humanidade está a tomar proporções cada vez mais graves com efeitos quase inexplicáveis e imprevisíveis. As pressões exercidas nos ecossistemas ligadas à poluição (Branquinho et al., 1997; Cape et al., 2009), sobre-exploração (Concostrina-Zubiri et al., 2016b; Pinho, Dias, Cruz, Sim Tang, Sutton, Martins-Loução, Máguas, & Branquinho, 2011), degradação e contaminação de solos (Goncalves et al., 2009; Martins-Loução & Cruz, 2007), introdução de espécies invasoras (Carvalho et al., 2010; Maguas et al., 2011),  e às alterações climáticas (Matos et al., 2016) estão a produzir efeitos cumulativos que podem levar à erosão da biodiversidade e atingir pontos de rotura à escala planetária (Rockström et al., 2009a, 2009b)(Steffen et al., 2015).

A gestão ecológica tirando partido do conhecimento sobre a ecologia dos ecossistemas pode desenvolver estratégias de minimização que permitam aumentar a resiliência, resistência ou recuperação dos ecossistemas. Estas medidas passam,  por exemplo, por desenvolver programas de recuperação ou restauração (Branquinho et al., 2014; Clemente et al., 2016), ou programas de prevenção e precaução, através da conservação ex situ em bancos de sementes (Clemente et al., 2011; Clemente & Martins-Loução, 2013) ou jardins botânicos (Brehm et al., 2010; Martins-Loução & Gaio-Oliveira, 2016). Mas passam ainda pelo conhecimento aprofundado das características dos grupos funcionais presentes no ecossistema e do seu significado que podem ser usados como indicadores de prevenção e de alerta perante situações de rotura (Concostrina-Zubiri et al., 2016a; Costantini, Branquinho, Nunes, Schwilch, Stavi, Valdecantos, & Zucca, 2016; Listopad, Masters, Drake, Weishampel, & Branquinho, 2015).

O grande dilema actual é verificar que nem mesmo com estas estratégias se conhece quais os efeitos sinergísticos destas acções, particularmente perante as actuais alterações climáticas estocásticas no tempo e no espaço. A recuperação de ecossistemas nativos já não é mais possível, por mais esforços que possam ser realizados. Ou seja, o ecossistema é outro, diferente, alterado, pode até ser mais resiliente do que o nativo. Por outro lado, do ponto de vista ecológico, social e económico o importante é ter consciência das condições actuais e tentar aumentar a resiliência e resistência dos ecossistemas (Lindenmayer et al., 2015). E isso só é possível aumentando a biodiversidade, as interacções entre espécies e procurar estabelecer programas de monitorização que sejam passíveis de elucidar sobre as interligações tróficas ou consorciais (Melo et al., 2016) e as suas adaptações a situações de stress. Esta abordagem holística é tão mais premente quando se sabe que a resposta individual das espécies às condições de stress está dependente das ligações que estabelece no ecossistema, quer a nível da parte aérea quer sobretudo ao nível do solo (Dias et al., 2015).

O actual desafio da ecologia de sistemas é proporcionar uma visão holística e uma integração dos diferentes componentes do ecossistema sem, porém, descuidar o conhecimento detalhado da biologia das espécies, e das suas interacções, dos grupos funcionais e do que eles representam para os serviços do ecossistema, já que são estes atributos que poderão funcionar como ferramentas biológicas de gestão.

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