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Inteligência artificial, modificações e edições genéticas | Público


Maria Amélia Martins-Loução, Presidente da SPECO, publicou um artigo no Jornal Público, alertando para os possíveis consequências dos novos avanços tecnológicos.


Ao longo das últimas semanas tem-se assistido a um conjunto de artigos e debates de opinião sobre os “perigos” eminentes que a inteligência artificial nos pode trazer. Até aqui, o focus do investimento devia ser direccionado para a digitalização e o desenvolvimento de ferramentas de inteligência artificial. De repente surgem os “perigos”, que podem ser sociais, com a alteração ou perda de empregos, de saúde, com interacções emotivas difíceis de combater ou até mesmo educativas, com novos paradigmas e ferramentas disponíveis.

Stephen Hawking avisava: “O desenvolvimento da inteligência artificial pode significar o fim da espécie humana.”

Perante esta avalanche de problemas, será que se deve parar para pensar e redireccionar a evolução tecnológica?

Este tipo de argumentos esteve também na base do desenvolvimento e aplicação dos chamados “organismos geneticamente modificados” (OGM). Desde os anos 50 do século passado, quando se começou a conhecer a base genética dos organismos, o grande objectivo era a engenharia genética ou biotecnologia. Foi o desenvolvimento científico destas técnicas que permitiram o desenvolvimento da indústria agro-alimentar e o surgimento dos primeiros OGM na década de 90.


Importa lembrar que, independentemente das polémicas que estes OGM suscitaram, o seu uso possibilitou o aumento de produtividade, diminuição de uso de pesticidas, melhoria nutricional, resistência a pragas e a condições climáticas adversas. No fundo, asseguraram o fornecimento de alimento a uma população mundial que tem vindo a crescer exponencialmente.


Significa que estas modificações genéticas não têm problemas? Ao alterar a diversidade genética trazem-se problemas se essa diversidade não ficar assegurada de outra forma.

Mas o mesmo se passa quando se produzem organismos (plantas ou animais) todos iguais e que estão na base da nossa alimentação. A necessidade de assegurar alimento para fazer face à população tem assim originado uma elevada erosão genética e aumento de susceptibilidade por parte das espécies que ninguém comenta ou debate. Esta é uma das causas da perda de biodiversidade. Isso significa que se devia parar a investigação e o aperfeiçoamento destas técnicas de engenharia genética e aplicação agro-industrial?

Já neste século surgiram outras ferramentas como a CRISPR-Cas9 (Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats) chamada “tesoura genética” pela possibilidade de introduzir modificações pontuais no genoma. A sua importância foi reconhecida em 2020, pela atribuição do Prémio Nobel em Química. Esta inovação da edição genética não trouxe grandes polémicas até 2018, quando um investigador chinês anunciou que tinha criado os primeiros bebés geneticamente modificados.

Aqui, os alarmes foram accionados: até onde se pode ir?

Já não estamos a falar em modificações de organismos usados em particular na indústria agro-alimentar. Estamos em presença de edições genéticas em que se altera apenas o que se quer e que pode ser aplicado aos humanos. Isto tem inúmeras vantagens para a prevenção e/ou tratamento de doenças genéticas ou que são induzidas por proteínas alteradas. Mas, sendo uma técnica a evoluir permanentemente, pode dar origem a utilizações menos nobres ou até terroristas com graves implicações sociais. Tem sido isto discutido ou pensado mesmo com o livro polémico de David Goldstein (O Fim da Genética: Concebendo o ADN da Humanidade)? Aos três casos acima relatados muitos mais se poderiam juntar. Sendo diferentes, têm a investigação como ponto de contacto. O Homem é profundamente criativo e cada vez mais tecnológico. À medida que a compreensão da vida cresceu e o domínio digital foi alcançado, foram desenvolvidos novos “poderes” para manipular os seres vivos e criar novas máquinas interactivas. Mas esses poderes devem ser exercidos adequadamente. Os sistemas vivos são complicados.

Por isso, se interferirmos antes de compreender bem as suas consequências, erraremos e poderemos causar mais problemas do que os resolver.

Os conselhos de cientistas terão de ser cada vez mais contínuos e assertivos para serem compreendidos pelos políticos. E estes assuntos deviam ser amplamente discutidos e debatidos, sem demagogias e medos. Se os investigadores não podem nem devem parar, a discussão sobre o alcance das suas experiências e as estratégias a tomar para evitar danos à sobrevivência da humanidade e do planeta deviam ser uma prioridade urgente.

E nada como aprender a ler o livro da natureza para nos inspirar a saber para onde e até onde ir.

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