A missão e comunicação da Galeria da Biodiversidade, com Maria João Fonseca

Galeria da Biodiversidade, Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto

Licenciada em Biologia Animal Aplicada e Ensino da Biologia e com um Doutoramento em Ensino e Divulgação das Ciências, Maria João Fonseca (MJF) é actualmente Directora de Comunicação do Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto (MHNC-UP).  Tem uma vasta experiência no design, implementação e avaliação de actividades educativas em ambientes de aprendizagem formais e não formais, bem como em comunicação institucional. Entre os seus interesses encontram-se temas como a cultura científica, o cruzamento entre a arte e Ciência na Promoção da mesma, educação em ciência em ambientes informais, sobretudo museus e centros de ciência, metodologias de aprendizagem activa e avaliação do impacto de experiências educativas.

Depois de vários momentos de colaboração entre a SPECO e a Galeria da Biodiversidade, estivemos à conversa com Maria João Fonseca para sabermos um pouco mais acerca do seu papel e da missão que tem a seu cargo no museu.

 

entrevista maria joao fonsecaSPECO: A Galeria da Biodiversidade (MHNC-UP e Ciência Viva) tem sido distinguida por várias entidades desde a sua inauguração há apenas dois anos, em 2017. Quais são os segredos do sucesso?

MJF: A Galeria da Biodiversidade surge como a concretização de um sonho de várias – muitas! – pessoas e das instituições que estas representam. É um projecto que todos reconhecem como de grande qualidade, mas que tem um valor simbólico e afectivo muito forte. Há neste projecto uma combinação muito singular de ciência, arte, literatura, arquitectura e história. Há algo de verdadeiramente mágico neste espaço, que julgo que não se consegue explicar. Pelo menos não de forma simples e não num número suficientemente curto de linhas que permita que os leitores desta entrevista se mantenham connosco até ao fim da mesma. Na realidade, não se trata de segredos ou de fórmulas. Julgo – sei – que não é isso. Talvez se trate mais de promover o diálogo entre áreas disciplinares, de fazer com que estas confluam num espaço em que cada parede, cada tecto, cada sala, cada módulo expositivo foi cuidadosamente trabalhado para ser belo. E a beleza é uma linguagem universal, que comunica com todos.

A par deste forte sentido estético, há a multiplicidade de experiências sensoriais que aqui são proporcionadas. Apesar de estarmos num ambiente fortemente visual, a combinação de todas as experiências oferecidas na exposição permanente, assim como as que podemos descobrir no Jardim Botânico que rodeia a Galeria, é rica e estimulante. Mas um factor essencial – e talvez o que deva ser destacado em primeiro lugar – que leva a Galeria a ser tão apetecível seja a narrativa segundo a qual esta se consubstancia. Na Galeria da Biodiversidade contam-se histórias sobre a vida, sobre nós e sobre o mundo à nossa volta, sobre como tudo evoluiu e sobre como pode ser o nosso futuro. Exalta-se a beleza e o valor da diversidade, e promove-se a reflexão sobre o nosso papel como agentes de mudança num ambiente que também nos muda. Na Galeria da Biodiversidade apresenta-se uma mensagem de esperança perante a nossa capacidade de preservar a biodiversidade, alertando-se para a urgência de assumirmos esta responsabilidade e nos comprometermos de forma empenhada com um estilo de vida sustentável. Estamos, portanto, perante temas que são relevantes desde o início dos tempos e que sempre o serão, mas que são agora, na era em que vivemos, cada vez mais prementes. O que poderia ser mais apelativo do que isto? Em todo o caso, respondendo de forma assertiva a esta pergunta, a minha proposta é simples: venham (re-)visitar a Galeria e descubram por vocês mesmos a magia que ela encerra.

 

SPECO: Enquanto Directora de Comunicação do Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto, quais são os seus objectivos?

MJF: Mesmo que não tivesse uma ligação profissional ao Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto, reconheceria este como um dos mais maravilhosos projectos que já tive a oportunidade de conhecer. E esta percepção torna-se evidente precisamente com a abertura da Galeria da Biodiversidade. Os meus objectivos em termos de comunicação são múltiplos, mas talvez possam ser sistematizados em duas grandes categorias: i) dar a conhecer esta nova plataforma cultural; e ii) perceber o impacto que a mesma tem nos seus visitantes. No que diz respeito à divulgação do Museu, é importante ter presente que qualquer plano de comunicação a ser posto em prática terá de ser multifásico e incremental, tal como o próprio projecto é. Isto significa que todas as acções de disseminação desenvolvidas têm de ser cuidadosamente pensadas de modo a acompanhar a evolução do projecto. Por outro lado, até ao momento, ainda não apostámos de forma directa numa estratégia publicitária (a qual, posso avançar, está a ser montada). Aquilo que temos vindo a fazer é a apostar na partilha das experiências dos utilizadores, a divulgar acções, actividades e acontecimentos concretos, nos quais todas as pessoas podem participar. E, depois, a estimular o “passa a palavra”, quer pessoalmente, quer através das redes sociais, por exemplo. Interessa-nos auscultar os nossos públicos, perceber como as pessoas sentem o espaço, como interagem connosco e como experienciam e aproveitam a nossa oferta científica, educativa e cultural. Somos um museu com responsabilidades sérias ao nível da promoção cultural. Como tal, privilegiamos os conteúdos que trabalhamos. E a comunicação que fazemos está alinhada com esta lógica. Temos de assegurar uma consistência entre as nossas mensagens e a forma como as comunicamos. Neste sentido, os testemunhos sinceros de quem nos conhece são recursos de comunicação preciosos e muito fortes, que não podemos nem pretendemos descurar.

Temos também vindo a actuar em rede, integrando-nos nas mais diversas infraestruturas e redes (PRISC, PORBIOTA, DiSSCo, Ecsite, SUMs, e a própria Ciência Viva, que para além da Universidade do Porto, que somos, é igualmente fibra da matriz que nos compõe). E esta ligação a parceiros-chave permite-nos ampliar os nossos canais de comunicação e tirar partido da experiência de pares para melhorar as experiências que oferecemos ao nosso público, aumentando a informação que temos a divulgar.

Finalmente, somos um museu de pessoas para pessoas. E nesse sentido não podemos nem queremos ignorar o impacto da nossa forma de comunicar. Portanto, à acção em termos em comunicação, aliámos desde logo a investigação. Começando com o ambiente físico do Museu, em particular com a Galeria da Biodiversidade, estamos já a desenvolver vários estudos de públicos – uns mais clássicos, outro nem tanto. E isto em parceria com instituições como a Porto Business School, as Universidades de Exeter e do Minho, entre várias unidades da Universidade do Porto. Importa-nos perceber o efeito que a nossa comunicação no local, concretizada de um modo muito particular pela nossa equipa de monitores, tem nos nossos visitantes. Numa fase seguinte, passaremos para os ambientes digitais. O objectivo é recolher dados que nos permitam melhorar sempre a oferta que preparamos para o nosso público.

Em suma, aquilo que pretendemos como museu que assume a comunicação como uma linha de acção estruturante é implementar, estudar e aperfeiçoar uma estratégia inovadora, transversal e integradora relativamente a todas as actividades que desenvolvemos que se possa adaptar às necessidades e expectativas do nosso público e evoluir com elas. Esperamos poder dar-nos a conhecer, claro, até porque temos ainda ampla margem para aumentar o volume e diversidade dos nossos públicos (o que, aliás, não é surpreendente numa estrutura recente como a nossa). Mas, mais do que isso, esperamos conseguir comunicar as nossas mensagens de um modo que permita que esses públicos tirem efectivamente proveito de tudo aquilo que temos para oferecer: exposições, actividades culturais e educativas, colecções e investigação, exploração e outros serviços, e que reconheçam e se identifiquem com a nossa missão e valores.

 

SPECO: A própria designação da Galeria remete para um foco e preocupação na disseminação e estímulo ao conhecimento sobre a biodiversidade. Que impacto tem tido nos visitantes? Como avalia o papel da Galeria na educação e sensibilização do público na temática da biodiversidade?

MJF: Exactamente. Tal como tive já a oportunidade de referir, na Galeria da Biodiversidade, apoiados, claro está, no Jardim Botânico, procuramos celebrar a vida e a sua diversidade em todas as suas vertentes, alertando para a urgência de preservarmos essa biodiversidade da qual fazemos. Apesar de não existir na Galeria uma narrativa exclusiva e fechada e de haver lugar para exploração de temas diversos enquadrados em praticamente todas as áreas do conhecimento, as questões relacionadas com o desenvolvimento sustentável e a compreensão e promoção da biodiversidade são, sem dúvida, centrais. Mas um aspecto importante é que estas questão são aqui trabalhadas não segundo uma perspectiva fatalista ou determinista, mas antes estimulando uma postura de mobilização, de preparação para a acção. Aquilo que fazemos na Galeria é estimular a curiosidade dos visitantes acerca de um conjunto chave de fenómenos e processo biológicos subjacentes à origem da vida e à sua evolução. Sendo autor do seu próprio conhecimento, o visitante apropria-se de todas as noções que exploramos. A nossa filosofia é a de que não há barreiras entre as várias áreas de conhecimento, não há limites estanques que se interponham à nossa capacidade de percepcionar a realidade. Procuramos, por meio de experiências sensoriais, módulos interactivos e instalações artísticas, sempre que possível recorrendo à literatura, estimular o gozo intelectual, a vontade de saber mais e o desejo de agir, de actuar. Esse é o nosso papel: dar a conhecer os mais recentes avanços científicos, especialmente no que diz respeito à biodiversidade e conservação da natureza num espaço neutro e convidativo, de fruição, em que todos – independentemente do seu background – sintam que fazem parte de um esforço colectivo para construir um futuro sustentável.

Até ao momento, as reacções que temos vindo a testemunhar e os pareceres que nos têm vindo a ser reportados são bastante positivos, sugerindo efeitos positivos ao nível da consciencialização para a necessidade de preservação da biodiversidade. Como tal, e reconhecendo que a nossa acção a este nível representa apenas um contributo no contexto de uma dinâmica que envolve –  e que tem mesmo de envolver – uma multiplicidade de agentes educativos, mas não só, a avaliação do impacto da nossa actividade depende da recolha de indicadores rigoroso, de forma continuada. Esse esforço foi, tal como já referi, iniciado. Mas ainda precisamos de um pouco mais de tempo para obter dados que permitam perceber exactamente qual o nosso impacto.

 

SPECO: Se tivesse de escolher uma exposição, módulo ou actividade preferida da Galeria, qual escolheria e porquê?

MJF: A resposta a esta pergunta é uma missão impossível! Penso sinceramente que a Galeria funciona no seu conjunto, pelo enquadramento singular em associação ao Jardim Botânico, por ser um híbrido de centro de ciência e museu universitário, pelo cruzamento entre arte, ciência e literatura em que assenta e pela sólida narrativa global que apresenta. E depois também pelas exposições que acolhe e actividades que promove, que, alinhadas com a sua visão, permitem consolidar e ampliar o seu impacto e linhas de acção. No que diz respeito a módulos, poderia destacar o esqueleto de baleia da colecção de zoologia do Museu que, suspenso no átrio principal da Galeria, dá vida à história inventada por Sophia de Mello Breyner Andresen que nos é narrada no seu conto Saga (in ). A história desta peça em particular é fabulosa. É ela que dá o mote para a derradeira metáfora museográfica segundo a qual se estrutura toda a narrativa do Galeria e do projecto global do Museu. Foi também ela que nos permitiu fazer algo de extraordinário, que foi pegar num ícone, estilizá-lo e criar uma identidade para a marca editorial Arte e Ciência, através da qual temos vindo a desenvolver uma componente muito especial da estratégia de comunicação do Museu num movimento perfeitamente contracorrente de promoção do objecto-livro e do prazer pela sua leitura.

Mas não posso ignorar as quatro vitrinas híper-cúbicas de compreensão súbita (nome inventado pelo criador deste conceito, o Prof. Jorge Wagensberg), que, ordenando o átrio principal da exposição permanente nos lembram porque devemos proteger a biodiversidade: uma infinidade de ovos para nos mostrar a beleza da natureza; miniaturas de cães representando todas as raças que inventámos a partir do lobo para nos mostrar que o valor intrínseco de uma espécie que chegou até aos nossos dias justifica a sua protecção; uma colecção de amostras de sementes provenientes de diferentes geografias, associadas à sua área de origem, para nos lembrar que na base do mercado global está nada mais nada menos do que a biodiversidade; e todos os comprimidos e cápsulas que temos à disposição para melhorar a nossa qualidade de vida que, mesmo produzidos em laboratório, nos fazem reflectir sobre a forma como os princípios activos que estão na sua origem se encontram primeiramente na natureza.

Mas também adoro a cortina de milho, que construída segundo um fortíssimo sentido de estética, nos conta a história do processo de domesticação deste cereal fundamental na alimentação humana e dos animais de que nos (alguns de nós, pelo menos) alimentamos. Ou a parede de caracóis riscados, que nos mostra de forma clara como cada um de nós, seres vivos, é um ser irrepetível, deixando claro que é na diversidade que reside a nossa capacidade de sobrevivência e evolução. Há ainda os quatro mosaicos de folhas recolhidas no Jardim Botânico, nos quais estão condensados os infindáveis tons de verde que podemos encontrar no exterior.

Enfim… Na Galeria as experiências que nos marcam são muitas. E, sendo que cada uma é especial, o que mais me impressiona talvez seja o seu conjunto e a forma como, ali, tudo encaixa no seu lugar. Há um espirito do espaço, que se sente verdadeiramente, que é muito difícil de encontrar noutros lugares, até mesmo noutros museus.

Quanto a actividades, bom, tenho também alguma dificuldade em escolher uma favorita. Porque, uma vez mais, o que me seduz é a abertura total do espaço à realização dos mais diversos eventos e acções, de tipologias que vão deste a típica palestra, conferência ou workshop a concertos de música clássica ou electrónica, passando por peças de teatro com video mapping. Já tivemos e fizemos de tudo. E continuaremos a ter. Há espaço para todos neste espaço, que se assume como uma espécie de gare cultural onde todas as áreas do saber se encontram. E, no fundo, o que mais me agrada mesmo é perceber como qualquer pessoa pode tirar partido deste espaço. O que mais me entusiasma é ver os grupos que nos chegam desde o infantário até à universidade sénior ocupar o espaço e surpreender-se com o que ele tem para oferecer, é ver a família que ao fim de semana atravessa os portões do Jardim simplesmente para passear, ou para, pela enésima vez ver o [esqueleto d’]“a baleia”, que o mais pequeno originalmente pensava ser um dinossauro, mas que o surpreende sempre pelo seu tamanho e por estar “a nadar” no centro do átrio da Galeria.

 

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noticia entrevista maria joao fonseca foto galeria

 

 

SPECO: A construção, preparação, ou até aquisição de novas exposições, é sempre desafiante. Em Portugal, existem apoios neste contexto? Como se superam estas adversidades?

MJF: Claro que sim. A construção de um projecto expositivo é exigente e desafiante e para além de implicar um investimento considerável do ponto de vista financeiro, depende também do esforço e dedicação de um grande e diverso conjunto de pessoas.

Felizmente, no caso particular do nosso projecto, temos sido muito bem sucedidos. Antes de mais, temos tido a orientação do nosso Director, o Professor Nuno Ferrand de Almeida, uma pessoa extraordinária, que detém não só um profundo conhecimento acerca de ciência e da forma como se faz ciência, mas também uma vastíssima cultura geral e a sensibilidade necessária para perceber e valorizar a complexa rede de interacções que se estabelecem entre esta e todas as outras áreas do saber, para ver o mundo de uma forma verdadeiramente sem limites. São as suas ideias, o seu entusiasmo imbatível e a sua capacidade de mobilizar equipas de pessoas especializadas e dedicadas que estão na base da capacidade de construir um projecto maravilhoso como este. Depois, e de outra forma nunca teríamos conseguido levar a cabo um projecto assim, temos o apoio imprescindível da Universidade do Porto, da qual fazemos parte, e das pessoas que a têm vindo a governar e a fazer funcionar – a todos os níveis na sua complexa estrutura. Foi a nossa universidade que criou as condições que permitiram a génese da ideia original e é ela que, com o seu apoio irrepreensível, tem vindo a permitir a sua concretização. Contamos também com o apoio de outra entidade-chave: a Agência Ciência Viva, que desde cedo tem partilhado os seus recursos e experiência connosco, permitiu a nossa integração não só na rede de centros Ciência Viva mas também noutras redes internacionais, criando oportunidades ímpares que nos têm permitido actuar em ambientes que para nós eram novos. Depois, temos o apoio de todos os parceiros que, de uma forma ou outra, se têm vindo a associar ao projecto, desde a Câmara Municipal do Porto a outros museus, quer em Portugal, quer no estrangeiro. Isto é muito importante. Em termos de apoio financeiro, temos tido a sorte de conseguir atrair fundos regionais, no contexto de programas de financiamento competitivos. E, como tal, destaco também o apoio recebido da Comissão de Coordenação de Desenvolvimento Regional do Norte. Para além dos fundos associados a projectos, temos também vindo a contar com o apoio mecenático e a este nível importa, naturalmente, salientar a Sonae, mecenas da Galeria da Biodiversidade, e a Fundação la Caixa, que tem contribuído para o desenvolvimento do polo central do Museu. Também a colaboração de parceiros chave, de entre os quais se destaca a National Geographic e a Fox Networks Group, têm permitido projectos de qualidade ímpar e grande impacto.

Por outro lado, é importante perceber que o contexto em que operamos nos torna privilegiados. Temos acesso a edifícios históricos e a colecções também elas históricas, por isso não nos faltam belas narrativas e histórias interessantes para contar. O desafio por vezes coloca-se mais em termos de conseguir perceber por onde começar!

Mais uma vez, não é possível aplicar uma fórmula para ultrapassar os desafios e adversidades que se colocam quando se tenta construir uma exposição. Mas é certo que a solução passa pelas pessoas. E, para além daquelas que representam as instituições que nos apoiam, temos também a sorte de poder contar com as pessoas que ao longo do processo de construção do projecto se dedicaram plenamente à causa. Temos a sorte de contar com a colaboração de equipas extraordinárias, desde as envolvidas na construção dos espaços e exposições – arquitectos, no caso da Galeria, o Arq. Nuno Valentim e sua equipa; designers, também no caso da Galeria, o Prof. Luís Mendonça e a sua equipa; museólogos, o Prof. Wagensberg, que delineou o programa museográfico da Galeria e que nos deixou com as ideias que orientarão o programa do nosso polo central, entre outros – até àquelas que participando directa ou indirectamente nesse processo, operam diariamente no sentido de dinamizar essas exposições e de fazer viver, não só a Galeria, mas também o Jardim e, afinal, o Museu, na sua estrutura global. Desde os curadores aos monitores, passando por todos os intervenientes em todos os outros sectores, a verdade é que com o contributo de pessoas competentes, dinâmicas e altamente motivadas tudo é possível.

 

SPECO: Em termos de acessibilidade do espaço e do conteúdo, que preocupações existem sempre na preparação das exposições e das actividades? Como é promovida a inclusão na Galeria?

MJF: Parece-me que a acessibilidade e inclusão devem ser um objectivo base de qualquer actividade cultural – ou outras – que se pretenda promover. No caso particular da Galeria da Biodiversidade, sendo que estamos perante um equipamento instalado num edifício (e jardim) histórico, há naturalmente desafios que se colocam desde logo à acessibilidade física. A maioria destes desafios tem vindo a ser ultrapassada ao longo das várias intervenções de requalificação infraestrutural dos espaços. No que diz respeito a outras formas de acessibilidade e inclusão, temos vindo já a desenvolver diversas actividades focadas especialmente em grupos particulares, bem como na formação da nossa equipa, de modo a que possamos estar preparados para acolher todas as pessoas. Há ainda muito a fazer, como sempre haverá quando se procura desenvolver um trabalho que permita responder sempre e cada vez melhor às necessidades do público, mas contamos com o apoio de profissionais nestas áreas, dentro e fora da nossa universidade. Por sua vez, no que concerne à exposição permanente, em particular, apesar de termos um ambiente fortemente visual, oferecemos outro tipo de experiências sensoriais, de modo a diversificar os canais de comunicação com os visitantes. As nossas mensagens são simples e directas, plenas de sentido, mas apresentadas de uma forma nada intrusiva ou autoritária, sempre recorrendo a metáforas, textos fortemente literários e a uma forte componente estética. Ao proporcionar formas diversas de exploração das experiências apresentadas ao público, a Galeria torna-se, em si mesma, inclusiva.

Adicionalmente, no âmbito da infraestrutura PRISC (Portuguese Research Infrastructure of Scientific Collections), que integramos juntamente com o Museu de História Natural e da Ciência – Universidade de Lisboa e com o Museu da Ciência e o Jardim Botânico –  Universidade de Coimbra, criámos um grupo de trabalho dedicado especificamente ao desenvolvimento de um programa para trabalhar e promover a inclusão a partir do trabalho com colecções. Esperamos ter brevemente desenvolvimentos a este respeito.

 

SPECO: Os museus enquanto espaços educativos têm representado espaços de excelência no contacto entre a ciência e o público. Que desafios e oportunidades espera que venham a surgir nos próximos anos?

MJF: Plenamente de acordo! Os museus são espaços privilegiados de promoção do contacto com a ciência, arte, literatura, história, entre muitas outras áreas e de promoção do gosto pela fruição da cultura. E são-nos quase sem barreiras à criatividade de quem desenha e dinamiza as experiências educativas e culturais. São verdadeiras plataformas de promoção cultural, com o poder de se relacionar com entidades e instituições de todas as áreas e de mobilizar todos os tipos de audiências. Do ponto de vista do contacto com os seus públicos, parece-me que os grandes desafios que se colocam num futuro próximo aos museus se prendem com a necessidade destes se assumirem como espaços de relevância no contexto dos grandes desafios societais que agora enfrentamos. Desafios globais como a crise climática, a perda de biodiversidade, a sustentabilidade, a eficiência energética, a segurança e distribuição alimentar e a liberdade dos cidadãos, entre outros, podem e devem ser abordados e trabalhados nos museus e centros de ciência, colocando-se a questão sobre se estes devem manter o posicionamento neutro segundo o qual têm vindo a actuar ou se devem “tomar partidos”, se devem assumir uma posição crítica e passar a actuar em conformidade. A grande oportunidade que surge a partir das incontáveis estratégias para responder a estes desafios passa pela capacidade que estas instituições têm de recorrer a metodologias, soluções, canais e uma linguagem próximas dos seus públicos, diversificando experiências e, por sua vez, diversificando também os seus públicos. Este é outro grande desafio: independentemente da inevitável variação cultural que determina a existência de formas diferentes (e de diferente intensidade) de utilização dos espaços culturais, e dos projectos excepcionais que têm vindo a surgir nos últimos tempos, a maioria dos museus e centros de ciência tem ainda ampla margem para ampliação dos seus públicos.

Penso ainda que uma grande oportunidade, que é simultaneamente um desafio, que se coloca ao futuro dos museus passa pela capacidade de estabelecer parcerias e actuar em rede. Cada vez surgem mais museus e o ritmo a que isso acontece não é consonante com uma verdadeira lógica de parceria e colaboração. Casos com a Rede Nacional de Centros Ciência Viva, ou a infraestrutura PRISC, são, surpreendentemente, ainda um pouco raros (ou, pelo menos, não tão comuns como seria de esperar). Acredito, até porque há já muito bons exemplos disso mesmo, que, a fim de garantir a sustentabilidade, relevância e pertinência destes espaços num mundo em mudança, todos – instituições e públicos – beneficiariam do compromisso com uma visão mais assente na colaboração do que na competição.

 

SPECO: A SPECO tem vindo a fortalecer as relações com a Galeria e com o MHNC-UP, designadamente através do consórcio PORBIOTA (E-Infraestrutura Portuguesa de Informação e Investigação em Biodiversidade) e da promoção do Ecology Day. Relativamente ao PORBIOTA, que potencialidades encontra na promoção do conhecimento produzido pelo projecto junto da sociedade? Quais são as suas expectativas?

MJF: O PORBIOTA é uma infraestrutura digital de mobilização de dados de biodiversidade. Do ponto de vista científico tem um potencial e relevância tremendos, porque permite conhecer e monitorizar a biodiversidade não só a nível nacional, como também, nomeadamente através da integração em redes mais amplas como a LIFEWATCH, a nível global. Este manancial de conhecimento que, através do PORBIOTA se constrói, constitui um ponto de partida fundamental para o desenvolvimento de acções educativas, culturais e de disseminação sobre tópicos relacionados com a biodiversidade e conservação da natureza. E é isso mesmo que tem vindo a ser feito, nomeadamente através da realização de actividades enquadradas em iniciativas globais como o Ecology Day. Para além de cursos de formação dirigidos a um público mais especializado, as várias entidades que integram o consórcio têm vindo a desenvolver acções dirigidas a públicos não especialistas com o objectivo de, mais do que dar a conhecer a infraestrutura em si, permitir a utilização do conhecimento que esta gera e a sua aplicação à promoção da cultura científica e ao estímulo da capacidade de tomada de decisões informadas e críticas sobre temas ambientais com reflexos mais ou menos imediatos na qualidade de vida das populações e na sustentabilidade do planeta.

 

SPECO: Que importância atribui à celebração do Ecology Day e ao objectivo de alcançar expressão internacional?

MJF: Tal como já referi, acredito na máxima que diz que “juntos somos mais fortes”. As iniciativas internacionais que têm a capacidade de estimular o desenvolvimento de acções nacionais sólidas do ponto de vista dos conteúdos abordados são sempre muito importantes, devido à ampliação do impacto dessas mesmas acções. Para além disso, o facto de se criar uma tradição de celebração de dias temáticos relacionados com tópicos prementes é também bastante eficiente, nomeadamente no que diz respeito ao planeamento das acções a desenvolver, que, quando delineadas atempadamente, se podem revelar mais impactantes e com um maior nível de qualidade. O Ecology Day não é excepção. Acredito que que quando nos mobilizamos por um tema de impacto global faz sentido que isso aconteça à escala global.

 

SPECO: Como vê o Ecology Day enquanto ferramenta de disseminação do PORBIOTA? 

MJF: O Ecology Day, a par de outras datas simbólicas, tais como o Dia Internacional da Biodiversidade ou o Dia Mundial do Ambiente, oferecem o enquadramento ideal para promover acções de disseminação focadas na biodiversidade. Não sendo propriamente uma ferramenta de disseminação, estes dias são um pretexto, i.e. oferecem um bom contexto, para desenvolver actividades que, acontecendo localmente ou a nível nacional, nomeadamente através da acção conjunta das entidades que integram este consórcio – e que, são, para além de museus e sociedades científicas, também centros de investigação e outras instituições ligadas à ciência e à conservação da natureza – adquirem uma projecção internacional. Mais do que criar uma oportunidade de mostrar o que é e o que faz o PORBIOTA, o Ecology Day permite promover uma oferta cultural e educativa assente em actividades robustas que dão a conhecer as aplicações possíveis do conhecimento que a infraestrutura gera e o seu significado para perceber o nosso passado, actuar no presente e assegurar o nosso futuro.