CIRCULARES - Quando a ciência cruza oceanos

500 anos depois de Magalhães, a ciência portuguesa dá novamente a volta ao mundo a bordo do Navio Escola Sagres

500 anos depois de Magalhães, a ciência portuguesa dá novamente a volta ao mundo a bordo do Navio Escola Sagres

O Navio Escola Sagres deixou Lisboa a 5 de Janeiro para mais uma viagem de circum-navegação, desta vez para comemorar e recordar o feito histórico alcançado pelo português Fernão de Magalhães no início do século XVI. Em ambas as viagens, a arte de navegar é acompanhada de um imenso conhecimento e da sua própria evolução através da ciência. Desta vez, a ciência está nas mãos dos cadetes, graças ao projecto CIRCULARES, desenvolvido por investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.A viagem de circum-navegação de Magalhães teve como objectivo definir a localização exacta das ilhas Molucas, tarefa que, segundo Henrique Leitão, investigador do Centro Interuniversitário de História das Ciências e Tecnologia, tinha por base “a demanda pela resposta ao maior dilema científico da altura: como determinar a longitude?”. 500 anos volvidos os desafios científicos são outros, mas igualmente prementes.

Graças às descrições do italiano Antonio Pigaffeta, sabemos hoje como decorreu a viagem, por que peripécias e infortúnios passou e o que ficou registado como novidade. Desde os pinguins-de-Magalhães, aos lobos-marinhos, passando por peixes-voadores, aves-do-paraíso e inúmeras espécies de plantas, a biodiversidade encontrada pelos marinheiros europeus, pela primeira vez, foi um dos aspectos científicos mais marcantes da expedição.

E actualmente? Que espécies encontrarão os cadetes do Navio Escola Sagres? Esta é uma das questões a que o projecto multidisciplinar de ciência cidadã CIRCULARES procura responder. Como base em fotografias das espécies e no local em que foram tiradas, será possível retratar a biodiversidade da viagem e torná-la acessível a todos na plataforma Biodiversity4All. Durante os largos períodos no mar, a atenção recai não só sobre a produtividade marinha, mas também sobre os poluentes. Que informação se esconde na cor do mar? Através da aplicação Eyeonwater e da sua ligação a um satélite, a cor do mar será traduzida em quantidade de microalgas existentes na coluna de água. As microalgas são responsáveis pela produção de nutrientes e oxigénio através da fotossíntese. Assim, a sua variação (e a consequente variação da cor do mar) permite determinar a produtividade de cada massa de água. Tendencialmente, quanto mais produtivo é um ecossistema, maior é a abundância de organismos. Como a cor do mar pode esconder os seus verdadeiros problemas, a bordo do Navio Escola Sagres segue também um pequeno e prático kit que permitirá analisar a presença e quantidade de metais pesados ao longo da sua rota planetária.

O consórcio do projecto CIRCULARES, além da SPECO- Sociedade Portuguesa de Ecologia, inclui a Marinha Portuguesa, a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, o Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (cE3c-FCUL), o Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE-FCUL), o Instituto Dom Luiz (IDL), o Centro Interuniversitário de História das Ciências e da Tecnologia (CIUHCT-UL) e a empresa Senciência.

 

Texto de Rúben Oliveira.

 

Destaque da National Geographic ao projecto: https://www.natgeo.pt/historia/2020/02/navio-escola-sagres-reedita-viagem-de-fernao-de-magalhaes