Conferência dos Oceanos das Nacões Unidas

Conferência dos Oceanos das Nacões Unidas

A conferência das Nações Unidas sobre o Oceano, decorreu na semana de 27 de Junho a 1 de Julho, em Lisboa. O facto de ter sido em Portugal deve-nos deixar optimistas. O aparato de segurança em redor do pavilhão Altice era impressionante, e a diversidade dos delegados uma montra do mundo actual. 

A conferência estava organizada em “Diálogos Interactivos” cobrindo 8 grandes temas:

1- Poluição marinha

2- Gestão, protecção, conservação e restauração dos ecossistemas marinhos e costeiros

3- Minimizar e abordar a acidificação, desoxigenação e aquecimento do oceano

4-Tornar a pesca sustentável e proporcionar aos pescadores artesanais de pequena escala o acesso aos recursos e mercados

5- Promoção e reforço de economias sustentáveis baseadas no oceano, em particular para pequenos Estados insulares em desenvolvimento e países menos desenvolvidos

6- Reforçar o conhecimento científico e desenvolver a investigação marinha e a capacidade de transferência de tecnologia

7- Melhorar a conservação e utilização sustentável dos oceanos e dos seus recursos através da implementação do direito internacional, tal como reflectido na Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar

8- Aproveitar as interligações entre o Objectivo 14 de Desenvolvimento Sustentável e outros Objectivos para a implementação da Agenda 2030

Na sessão de abertura, os discursos dos Presidentes e altos representantes de diversos países eram prometedores, e prenúncio da decisão final: a protecção, a conservação e a sustentabilidade do oceano é objectivo global e consensual. Mas na veemência e concordância das diversas declarações, o como? o quando? a que preço? em troca de quê? eram obviamente detalhes que não poderiam, nem ficariam esclarecidos.

Embora unânimes na mensagem global, foi interessante apreciar as diferenças entre os vários países; os representantes de países em desenvolvimento mencionavam invariavelmente a palavra “food”, o Presidente do Palau (ilhas no Pacífico), mostrou os efeitos da subida do nível do mar e a diminuta contribuição do seu país para as emissões de carbono antropogénico para a atmosfera. 

Com efeito, e tendo como enquadramento os 17 objectivos de desenvolvimento sustentáveis (SDGs) das Nações Unidas, o enorme desafio que temos é pugnar pelo nº14, “Conservar e usar de forma sustentável os oceanos, mares e recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável”, numa perspectiva abrangente, tendo em vista a sustentabilidade e a preservação do planeta para as gerações futuras, as desigualdades dos países e ainda sem esquecer a urgência dos outros SDGs, onde o erradicar a pobreza e a fome são os dois primeiros. 

Como investigadora em Ecologia (tal como muitos sócios da SPECO), em produção primária, preocupada com as questões metodológicas, com a variabilidade intrínseca das comunidades e processos biológicos, sinto um certo desconforto com algumas das afirmações, x toneladas disto, y daquilo, mas sei bem que apenas as mensagens simples são eficazes. No entanto, esta reflexão apenas reforça a necessidade premente de haver boa e sólida ciência a montante, fundamentando os argumentos a favor da sustentabilidade e conservação do oceano, do combate ao lixo marinho, ou do combate às alterações climáticas. De acordo com o “Global Ocean Science Report 2020”, Portugal é o 2º país do mundo com maior número de investigadores, por milhão de habitantes, em ciências marinhas. Esperemos, assim, que este capital humano tenha as condições para contribuir significativamente para os objectivos ambiciosos dos acordos assinados com pompa e circunstância.

Vanda Brotas

 

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Vanda Brotas, representante da SPECO na Conferência das Nações Unidas sobre o Oceano, é Professora Catedrática do Departamento de Biologia Vegetal (DBV) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e investigadora do MARE (Marine and Environmental Sciences Centre).

Os seus interesses actuais de investigação centram-se na área da Ecologia Marinha, em particular ecologia, função e dinâmica do Fitoplâncton, detecção remota da cor do oceano, produtores primários de ecossistemas estuarinos. Tem leccionado disciplinas desde o primeiro ano de licenciatura até mestrado, com particular incidência na área de Ecologia Marinha, e Produção Primária.

Foi Directora do Centro de Oceanografia e Presidente do DBV. Tem sido coordenadora, na parte portuguesa, de vários projectos internacionais, e investigadora principal de vários projectos nacionais. Tem estudado estuários, lagoas costeiras, zonas costeiras, e oceano aberto. É coordenadora do doutoramento em Ciências do Mar da FCUL e co-coordenadora do doutoramento de Biologia. Publicou mais de 80 trabalhos científicos.