FCULResta, o projecto pioneiro no campus de Ciências da Universidade de Lisboa

FCULResta, o projecto pioneiro no campus de Ciências da Universidade de Lisboa

O que é a FCULResta?

A FCULResta, mini floresta densa, biodiversa e multifuncional é um dos exemplos criados ao abrigo do Laboratório Vivo de Sustentabilidade da Faculdade de Ciências. Este projecto experimental, desenvolvido no âmbito dum projecto europeu 1planet4all - https://1planet4all.net/  -, com financiamento UE, Camões I.P. e ONGD Vida,  procura testar se o método Miyawaki se pode adaptar ao clima Mediterrânico.  Numa área de 300 m2 foram plantadas espécies de flora nativa, tendo a preocupação de seguir um gradiente de requisitos desde espécies mais adaptadas ao clima Mediterrâneo mais seco até ao mais húmido. Ecossistemas florestais incluem uma enorme diversidade de organismos que neste projecto experimental não vão passar despercebidos. Por isso, esta minifloresta contempla um charco temporário para monitorizar diferentes espécies de organismos que ali queiram “visitar” ou estar ao longo de todo o ano, mas também um “hotel” para insectos e joaninhas. Estando num espaço universitário o aspecto lúdico não foi esquecido tendo sido preparado um caminho sinuoso para as pessoas passarem e ao mesmo tempo usufruirem do passeio pelas diferentes partes desta mini floresta. Como projecto experimental que é segue um esquema de monitorização contínuo sobre a qualidade do solo e a quantidade de água disponível para as plantas, para além da fenologia das espécies plantadas.
Este método, pioneiro no clima Mediterrânico, tem possibilitado a criação de florestas em França, na Bélgica e na Holanda, sempre em ambiente urbano, revelando grande potencial no combate às alterações climáticas, tanto do ponto de vista da regulação térmica e de precipitação nas cidades, bem como na fixação de carbono e na melhoria da qualidade do ar.

Inaugurada a 5 de Março, a FCULResta passa despercebida aos frequentadores habituais do campus da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), devido às restrições de circulação impostas devido à pandemia.
Contudo, a equipa FCULResta filmou uma visita completa desta que é a primeira mini floresta na cidade de Lisboa.

Visita virtual à FCULresta

O que é o método Miyawaki?

O método Miyawaki foi desenvolvido com base no trabalho do botânico japonês Akira Miyawaki e consiste na plantação de mini florestas urbanas que se tornarão densas, biodiversas e multifuncionais. O plantio de espécies arbóreas importantes (Quercus), sub-espécies arbóreas, arbustos e coberto vegetal rasteiro e o acompanhamento, monitorização e intervenção directa durante cerca de dois a três anos, permite um crescimento rápido e o estabelecimento de uma floresta saudável e rica em espécies.

Saiba mais sobre este método em: https://boomforest.org/en/pages/miyawaki_method

Como parceiro deste projecto, a SPECO, vai acompanhar o progresso dos trabalhos que estão a ser desenvolvidos, a fim de constituir um registo experimental de acompanhamento deste Laboratório Vivo de Sustentabilidade da FCUL.

O progresso

Ao fim do primeiro mês conversamos com António Alexandre que nos contou um pouco sobre a evolução que houve, os desafios e alegrias que sentiu mesmo em tempo de pandemia que obriga a um confinamento e a cuidados redobrados entre professores e alunos.

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Ao fim de 1 mês de plantação qual é o vosso sentimento e a vossa preocupação?

Neste momento sentimos que estamos ainda no rescaldo da plantação. Foram muitos meses de preparação para algo que culminou numa semana intensa mas incrível de partilha e de co-criação. Estamos muitíssimos felizes por ter concretizado este grande objetivo e por tudo ter corrido de forma tão fluída e, por isso, a celebrar, ou seja a refletir o que correu bem até agora e quais as oportunidades de melhoria para uma próxima mini-floresta urbana. Ao fim de 1 mês podemos ver que a grande maioria das plantas já se adaptaram ao local, demonstrando os seus brotos identificativos da estação que chegou. Até agora, fruto da monitorização que começámos a fazer da flora muito recentemente, só encontrámos uma planta que não sobreviveu em mais de 100 por isso diríamos que o sucesso está a ser bastante positivo! A maior preocupação neste momento relaciona-se com a chegada do Verão – e das altas temperaturas – o que irá fazer com que seja precisa muita atenção ao nível da água disponível para as plantas (nem de mais, nem de menos) e como estas estão a reagir. Isto é especialmente relevante pois a plantação já foi algo tardia e os seus sistemas radiculares não estão ainda em completa sintonia e equilíbrio com o espaço de modo a resistirem à chegada destas temperaturas. No entanto, temos a felicidade de contar com água no espaço e com a manta-morta que cobre o solo, o que irá diminuir o impacto da temperatura – mas que ainda assim não podemos de todo subvalorizar.
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Que tipo de actividades têm vindo a desenvolver ao longo do tempo para monitorizar todo o processo de instalação?

Embora tenha existido um grande esforço até à instalação da FCULresta, a verdade é que a monitorização é fundamental e por isso muito provavelmente irá requerer ainda mais energia. Para esta tarefa pretendemos aliar a componente tecnológica à componente humana. Por um lado instalámos 3 sensores de medição de potencial hídrico e um de temperatura no solo, que nos fornecem informação atualizada online a cada duas horas (http://2adapt.pt/fculresta/). Isto permite uma avaliação remota dos dados que é extremamente valiosa pois apoia a decisão para uma rega mais eficiente do espaço, para além da análise à posteriori do sucesso das valas e combro em curva de nível que criámos no terreno para aumentar a infiltração de água no solo. Por outro lado temos um plano de monitorização da biodiversidade em geral (novas espécies que apareçam) e a flora em particular onde estamos e iremos mapear as plantas e efetuar medições regulares (espécie, abundância, altura e diâmetro da copa) que nos irão permitir responder a certas perguntas como o (in)sucesso por espécie, por zonas edafoclimáticas (Atlântico-temperado vs Atlântico-mediterrânico), por nível de sombreamento, mas também que evidenciem potencias relações benéficas das guildas criadas. Esta observação e presença física também permite interagir com a comunidade envolvente, aumento o sentido de pertença do espaço pelas pessoas que o rodeiam.
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Do ponto de vista científico, que tipo de estudos têm vindo a desenvolver e quem é que vos têm apoiado, em termos de estudantes e investigadores seniores?

Pretendemos observar e investigar as várias componentes que compõem o projecto – solo, biodiversidade, uso de água, poluição, temperatura e também o aspecto social – e perceber como evoluem e interagem ao longo do tempo. Temos algumas perguntas de investigação que queremos responder, muitas das quais em linha com os pressupostos assumidos para o método de Miyawaki noutros contextos climáticos. Para isso temos a sorte de contar com uma Comissão Científica diversificada (de diferentes departamentos) e dedicada ao projeto, que pretende abordar diferentes áreas de investigação e olhar para a FCULresta como um todo. Contamos neste painel com Cristina Cruz (DBV) sobre Ecologia de Solos, Otilia Correia (DBV) sobre a Diversidade e Ecologia Vegetal, Rui Rebelo (DBA) na área de Diversidade e Ecologia Animal, Pedro Pinho (DBV) em Serviços de Ecossistemas e Urb@n Lab, Tiago Marques (DEIO) sobre Análise de Dados e finalmente Cristina Catita (DEGGE) do Smartcampus. Os seus e outros pontos de vista e sugestões podem ser vistos em https://ciencias.ulisboa.pt/pt/fculresta#toc1 Neste momento temos já a trabalhar connosco a Carolina Marques, aluna de 3º ano do curso de Biologia sob a orientação de Tiago Marques que tem feito um trabalho incrível! Estamos também a falar com alguns alunos de doutoramento da FCUL de diferentes áreas que pretendemos envolver o mais rapidamente possível, em áreas como a avaliação dos serviços de ecossistemas ou medição da poluição. Esperamos que agora, com o gradual desconfinar e com o regresso dos alunos ao espaço académico, que mais alunos se venham a envolver nas diferentes partes da monitorização e investigação, quer por gosto pessoal quer como complemento aos seus estudos ou dissertações.
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Quais são os vossos próximos desafios?

Digamos que os próximos desafios estão relacionados com a sobrevivência das plantas, com a qualidade dos dados recolhidos e com a promoção da ideia de que o espaço FCULresta é um espaço para a interação e crescimento pessoal, bem como académico. É também importante garantir que o espaço se mantenha em boas condições (ex.: evitar acumulação de lixo). Cremos que o projecto tem tudo para ser um sucesso e a divulgação que está a existir do mesmo mostra isso mesmo, pelo que um dos desafios futuros poderá ser também a forma como iremos lidar com todos os contactos de interessados em querer participar ou replicar projectos como este. Por esta razão disponibilizamos online todos os conteúdos sobre como fazer uma FCULresta, de forma a que muitas outras, diferentes, semelhantes ou complementares, apareçam por todo o nosso país.