Prémio de Doutoramento em Ecologia 2026 | Entrevista a Bianca Reis, 1ª Classificada
- SPECO

- 23 de jul.
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Atualizado: 27 de jul.
Bianca Reis foi a vencedora do primeiro prémio do Prémio de Doutoramento em Ecologia - Fundação Amadeu Dias, organizado pela SPECO.

O trabalho da primeira classificada teve como objectivo compreender o funcionamento, as vulnerabilidades e o potencial de restauro das florestas ibéricas de kelp face às alterações climáticas. Recorreu a uma abordagem multidisciplinar, que integrou trabalho de campo, experiências laboratoriais e o desenvolvimento de uma ferramenta inovadora de medição in situ da produtividade de ecossistemas marinhos, Bianca Reis procurou perceber de que forma o aumento da temperatura dos oceanos, a tropicalização, a redução do afloramento costeiro e o aumento da herbivoria estão a transformar os recifes temperados. Os resultados demonstraram que as florestas de kelp associadas a águas mais frias apresentam maior produtividade primária e maior capacidade de absorção de carbono, desempenhando um papel determinante no ciclo de carbono azul. Revelou ainda que a limitação de nutrientes poderá comprometer o recrutamento de espécies boreais em cenários climáticos futuros e mostrou que os peixes poderão exercer uma pressão herbívora superior à dos ouriços-do-mar, algo inédito no Atlântico que traz novos desafios à gestão das áreas marinhas protegidas. A tese contribuiu também para optimizar técnicas de restauro através do método green gravel, identificando condições que favorecem o crescimento inicial do kelp.
No âmbito da celebração deste marco, e de modo a realçar a importância da sua investigação, a vencedora foi convidada a responder a algumas perguntas, cujas respostas pode encontrar abaixo.

O que esteve na base do desenvolvimento deste trabalho de doutoramento?
Este trabalho nasceu da conjugação entre uma paixão pessoal pelo mergulho científico e pelas florestas de kelp e o reconhecimento de que são ecossistemas de elevado valor ecológico e económico, atualmente ameaçados e em declínio a nível global. As florestas de kelp da costa ibérica revelam-se particularmente interessantes por serem ainda pouco estudadas: sabia-se pouco sobre as suas funções ecológicas, os fatores que as tornam vulneráveis e as possibilidades, e formas, de restauro e proteção.
Esta lacuna ganha especial relevância porque a Península Ibérica se situa numa zona de transição biogeográfica, funcionando como um hotspot para espécies de kelp do Atlântico Nordeste, várias das quais atingem aqui o seu limite sul de distribuição. Por esse motivo, esta região e estas espécies são particularmente vulneráveis às alterações climáticas, o que pode comprometer funções ecológicas e serviços de ecossistema essenciais, tornando ainda mais urgente o seu estudo.
Ao longo deste trabalho qual foi a sua maior alegria?
Este doutoramento esteve repleto de alegrias. Foram quatro anos muito bons, cheios de ótimos momentos, que marcaram a minha carreira científica de forma muito positiva e que vão deixar saudades. Um dos pontos altos foi a grande quantidade de trabalho de campo em ambiente subtidal, recorrendo a mergulho científico, coisa que me motiva sempre. Mas talvez o que mais me tenha marcado tenha sido o trabalho de equipa e o convívio com pessoas incríveis, orientadores, colegas e amigos, sem os quais este trabalho não teria sido possível, nem teria tido a mesma intensidade. Aproveito para, mais uma vez, agradecer a todos os que estiveram envolvidos.
Que desafios teve de enfrentar e que motivações arranjou para superar os seus problemas?
Sendo um trabalho fortemente baseado em estudos in situ em ambiente marinho, um dos grandes desafios foi a dependência das condições climatéricas e de mar, que numa costa tão exposta e dinâmica como a da Península Ibérica, ganha ainda mais relevância. Curiosamente, foi também daí que surgiu grande parte da motivação. Por ser um ambiente difícil de aceder, torna-se ainda mais aliciante explorá-lo e desvendar os seus segredos.
Para além disso, cultivar e manter organismos vivos, neste caso, algas, em condições de laboratório e mesocosmos é sempre um desafio devido à logística difícil e ao espaço limitado. Mas, acho que tudo pode ser ultrapassado quando encaramos as coisas de mente aberta, seguindo o plano, claro, mas conscientes de que é um processo de tentativa e erro.
No geral, a quantidade de trabalho incluída nesta tese foi bastante ambiciosa para os quatro anos de bolsa. Esta barreira foi ultrapassada não só devido ao esforço pessoal, mas também graças às pessoas que "embarcaram" comigo nestas aventuras.
O que ficou por explorar?
Muita coisa ficou por explorar, e ainda bem. As florestas de kelp representam ecossistemas extremamente complexos e, embora tenhamos caracterizado partes importantes da sua função ecológica e fatores de vulnerabilidade, ficam ainda várias questões-chave em aberto.
Uma das áreas com potencial para ser explorada é a produtividade primária. Gostaríamos de aplicar o método que desenvolvemos a diferentes contextos e alargá-lo a outras florestas de kelp a nível global, comparando padrões entre regiões e espécies. Considero também relevante aprofundar a componente da herbivoria em conjunto com as alterações climáticas, para perceber melhor como as relações tróficas variam entre florestas e como podem estar a mudar com o aquecimento das águas do mar.
Por fim, considero fundamental avançar na área da conservação, integrando um melhor planeamento das áreas marinhas protegidas, de forma a identificar as medidas de proteção mais eficazes face às alterações climáticas.
Quais serão os próximos passos da sua carreira?
O meu objetivo é continuar na investigação, dando seguimento precisamente às questões que ficaram por explorar nesta tese, e consolidar a minha carreira científica, procurando ganhar independência e financiamento que me permitam continuar a contribuir para o avanço da ecologia marinha e do mergulho científico em Portugal.
O mergulho científico é, e continuará a ser, uma componente central do meu trabalho. É a ferramenta que me permite estar em contacto direto com estes ecossistemas e responder a questões que dificilmente seriam possíveis de outra forma. Quero por isso continuar a aliá-lo à minha investigação futura, contribuindo também para o seu desenvolvimento enquanto área científica em Portugal.
O que o levou a concorrer a este Prémio?
Para mim, a SPECO é uma referência da ecologia em Portugal e já sigo o prémio de doutoramento em ecologia há vários anos, tendo sempre curiosidade pelos temas vencedores. Pareceu-me por isso uma boa oportunidade para dar visibilidade ao nosso trabalho, sobretudo por este assentar numa abordagem ainda pouco comum na nossa costa, focada em estudos in situ aplicados à ecologia marinha.
Que impacto espera obter com este resultado?
Espero que este reconhecimento ajude a dar mais visibilidade às florestas de kelp da nossa costa, que para muitos ainda são desconhecidas, e à importância da sua conservação, bem como ao mergulho científico como ferramenta de investigação em Portugal. Espero também que possa abrir portas a novas colaborações, nacionais e internacionais, que permitam continuar e expandir o trabalho desenvolvido nesta tese.
O que gostaria de ver na SPECO que impulsionasse os jovens a seguir investigação em Ecologia?
Considero que a SPECO já desempenha um papel importante na promoção da ecologia em Portugal, mas acho que esse papel podia ser ainda mais expandido e aproveitado. Seria bom fomentar o networking entre diferentes equipas de investigação a nível nacional, que ajudasse a direccionar esforços para colmatar as lacunas de conhecimento mais atuais. Uma ideia seria também a instalação de programas de mentoria que aproximem jovens estudantes de investigadores mais experientes, promovendo a cooperação, por exemplo, através de teses de mestrado ou licenciatura.
Como tenciona contribuir para aumentar a visibilidade da SPECO?
Tenciono, nas minhas próximas apresentações ou eventos públicos relacionados com a tese, mencionar este prémio e partilhar esta iniciativa sempre que possível, mostrando como apoia estudantes e jovens investigadores.
Nas redes sociais, pretendo também dar visibilidade à SPECO e partilhar os próximos eventos, atividades e iniciativas.
Que conselhos gostaria de dar aos jovens estudantes de Doutoramento?
Apesar de todos os desafios, o doutoramento pode ser um dos melhores períodos da carreira científica. Para mim, certamente foi. O meu conselho é procurar rodear-nos de pessoas que nos apoiem e tentar manter uma mentalidade leve, mas focada em ultrapassar as dificuldades. Acima de tudo, trabalhar naquilo de que gostamos, com paixão, e nunca esquecer de nos divertirmos ao longo do processo. Aproveitar a “viagem”.




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