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Prémio de Doutoramento em Ecologia 2026 | Entrevista a Joana Nogueira, 2ª Classificada

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    SPECO
  • há 34 minutos
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Joana Nogueira foi a vencedora do segundo prémio do Prémio de Doutoramento em Ecologia - Fundação Amadeu Dias, organizado pela SPECO.



Joana Nogueira recorreu a uma abordagem inovadora de Planeamento Sistemático da Conservação. Combinou dados de campo, bases de dados de espécies, técnicas de DNA ambiental e a análise de interações ecológicas entre diferentes grupos taxonómicos, para identificar novas formas de definir prioridades de conservação para os ecossistemas de água doce. Com este planeamento procurou melhorar a conservação deste tipo de ecossistemas, sub-representado nas Áreas Protegidas europeias e apoiar a sua expansão. Os resultados obtidos demonstraram que muitas áreas actualmente consideradas prioritárias podem ter perdido uma parte do seu valor de conservação devido à utilização de dados desatualizados e à falta de uma monitorização regular. O estudo mostrou ainda que a integração de interacções entre espécies, como a relação entre mexilhões de água doce e os peixes de que dependem para completarem o seu ciclo de vida, permite seleccionar áreas com maior representatividade ecológica - o que revela também lacunas na actual Rede Natura 2000. A junção de métodos convencionais com DNA ambiental revelou ser igualmente eficaz na detecção de espécies, incluindo as ameaçadas ou de difícil observação, possuindo um grande potencial para apoiar a sua conservação em regiões com menor capacidade de monitorização.


No âmbito da celebração deste marco, e de modo a realçar a importância da sua investigação, a vencedora foi convidada a responder a algumas perguntas, cujas respostas pode encontrar abaixo.



  • O que esteve na base do desenvolvimento deste trabalho de doutoramento?


O trabalho de doutoramento nasceu de uma lacuna na conservação, relacionada com o facto de as áreas protegidas serem sistematicamente pensadas sobretudo para ambientes terrestres ou marinhos, em que a água doce fica muitas vezes em segundo plano. O grande objetivo foi perceber onde estão as falhas metodológicas na forma como escolhemos as áreas prioritárias para conservação em ecossistemas de água doce, propor abordagens novas (como juntar interações entre espécies e dados de DNA ambiental) e, também, tentar que este conhecimento chegasse a decisores políticos com relevância para definir metas ambientais na União Europeia.


  • Ao longo deste trabalho qual foi a sua maior alegria?


A maior alegria de todas foi conseguir fazer este trabalho enquanto ao mesmo tempo fui mãe da Carolina e do Rodrigo. Escrever uma tese sobre a conservação da biodiversidade em ecossistemas de água doce enquanto mãe dá-me uma perspetiva de esperança no futuro. Espero sinceramente que os meus filhos desfrutem de um planeta mais sustentável e mais biodiverso.



  • Que desafios teve de enfrentar e que motivações arranjou para superar os seus problemas?


Alguns desafios surgiram pela falta de dados de qualidade e atualizados, assim como por vezes uma noção de que as áreas protegidas foram desenhadas com base em dados de espécies desatualizados ou nunca validados. Isto significa que, na prática, podemos ter áreas "protegidas no papel"; que já perderam grande parte do valor de conservação que motivou a sua designação. Por outro lado, e ao vivermos num planeta mutável e dinâmico (basta pensar nas possíveis alterações na distribuição em face das alterações climáticas), as áreas protegidas também terão de ser mutáveis e dinâmicas. A nível pessoal, o desafio foi mesmo o equilíbrio entre a vida familiar e o trabalho de campo e de escrita. A motivação para continuar veio sempre daí também e do amor genuíno pela natureza e a certeza de que a conservação é o único caminho que faz sentido para mim dentro da ciência.


  • O que ficou por explorar?


Ainda fica por explorar a dimensão socio-económica e política da conservação, ou seja, envolver comunidades locais, gestores e decisores de forma muito mais próxima do trabalho científico. Para mim, a chave do sucesso de muitos projetos de conservação está na integração da parte ecológica com a parte humana e política, e esse é o próximo grande capítulo. Não podemos desassociar as pessoas da conservação das espécies com quem elas partilham o espaço, e precisamos de apoio financeiro e político para manter estes projetos a longo prazo.


  • Quais serão os próximos passos da sua carreira?


A ideia para agora é aprofundar a parte de priorização para restauro, ou seja, não só proteger o que resta, mas ajudar a recuperar o que já se perdeu. E também explorar a ponte entre ciência, sociedade e política, reforçando maneiras de planear projetos de conservação transfronteiriços, já que os rios (e outros ecossistemas) não conhecem fronteiras, mesmo que os planos de conservação insistam em ter.


  • O que o levou a concorrer a este Prémio?


Achei que seria interessante dar mais visibilidade à conservação em ecossistemas de água doce, sobretudo a espécies menos carismáticas como os mexilhões de água doce, que eu acho extremamente fascinantes. Desde que comecei a trabalhar como investigadora em ecologia, tenho assistido a um declínio enorme nas populações destas espécies em Portugal, o que me motiva a encontrar formas de travar este declínio, e uma delas é sem dúvida dar-lhes mais visibilidade. Não podemos proteger aquilo que não conhecemos!


  • Que impacto espera obter com este resultado?


Espero, acima de tudo, que sirva de inspiração a mais jovens investigadores para se dedicarem à conservação de espécies de água doce, que são habitats cheios de segredos por descobrir. Espero também que este reconhecimento ajude a reforçar a mensagem principal desta tese: precisamos de mais informação, melhores metodologias, monitorização a uma escala espácio-temporal adequada, e mais vontade política para proteger a biodiversidade dulçaquícola na Europa. A Lei do Restauro da Natureza da União Europeia já estabelece metas específicas para ecossistemas de água doce, mas a obrigatoriedade dessas metas e a maneira como os Estados Membros as vão cumprir ainda são discutíveis. Este trabalho tem o potencial de informar decisores políticos para tal.


  • O que gostaria de ver na SPECO que impulsionasse os jovens a seguir investigação em Ecologia?


Convido a SPECO a organizar workshops práticos, saídas de campo, ações de bioblitz, e projetos de mentoria com investigadores mais experientes, direcionados a crianças e jovens. A paixão pela ecologia nasce muitas vezes de uma experiência direta com a natureza. Seria interessante que estas ações se focassem em áreas protegidas ao longo de Portugal, de forma a tornarem estas áreas mais conhecidas do grande público e levassem as populações locais a apreciar e conhecer as espécies que lá habitam.


  • Como tenciona contribuir para aumentar a visibilidade da SPECO?


Pretendo participar em conferências da SPECO, partilhando o meu trabalho e os resultados desta tese com a comunidade, junto de colegas e estudantes que ainda não a conhecem (e que devem ser muitos). Também gostaria de fazer parte das ações de divulgação promovidas para dar a conhecer as áreas protegidas em Portugal.


  • Que conselhos gostaria de dar aos jovens estudantes de Doutoramento?


Para os meus colegas que estão a planear ou a trabalhar no seu doutoramento, gostaria de lhes dizer para se focarem em algo que lhes apaixone e que dê sentido ao seu trabalho e esforço. E sobretudo, que se rodeiem de família, amigos, colegas e orientadores que vos apoiam, tendo a noção que podem pedir ajuda quando os dados não colaboram ou os resultados não são o que esperamos.


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