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Prémio de Doutoramento em Ecologia 2026 | Entrevista a Miguel Gandra, 3º Classificado

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    SPECO
  • 30 de jul.
  • 6 min de leitura

Atualizado: 31 de jul.

Miguel Gandra foi o vencedor do terceiro prémio do Prémio de Doutoramento em Ecologia - Fundação Amadeu Dias, organizado pela SPECO.



Miguel Gandra, o terceiro classificado, tentou compreender como é que a megafauna marinha utiliza o oceano e de que forma esta informação pode ser útil na conservação destas espécies. Recorreu a uma abordagem multidisciplinar com tecnologias avançadas de biotelemetria e biologging com ferramentas analíticas inovadoras, tais como modelos estatísticos e algoritmos de aprendizagem automática, o investigador analisou os movimentos, o comportamento, a utilização do habitat de quatro espécies de elevado interesse ecológico e socioeconómico: a corvina (Argyrosomus regius), dois tubarões de profundidade (Dalatias licha e Hexanchus griseus), e o tubarão-baleia (Rhincodon typus). Com base em mais de duas décadas de dados recolhidos na Península Ibérica e nos Açores, a investigação identificou corredores migratórios, áreas críticas de agregação e padrões de fidelidade ao habitat anteriormente desconhecidos. Estes dados revelaram comportamentos de alimentação e movimentos verticais, com implicações directas para a gestão e conservação destas espécies. A tese incluiu ainda o desenvolvimento de um pacote de código aberto para análise de dados de telemetria acústica, facilitando a utilização destas tecnologias pela comunidade científica.


No âmbito da celebração deste marco, e de modo a realçar a importância da sua investigação, o vencedor foi convidado a responder a algumas perguntas, cujas respostas pode encontrar abaixo.



  • O que esteve na base do desenvolvimento deste trabalho de doutoramento?


O meu doutoramento nasceu da vontade de compreender melhor como alguns dos maiores habitantes dos nossos oceanos utilizam o espaço e respondem ao ambiente que os rodeia. Espécies como tubarões, raias, grandes peixes ou cetáceos desempenham um papel fundamental nos ecossistemas marinhos, mas muitos aspetos da sua ecologia, comportamento e distribuição permanecem ainda pouco conhecidos. Ao mesmo tempo, enfrentam ameaças crescentes, como a sobrepesca, a degradação dos habitats e as alterações climáticas, tornando essencial aprofundar este conhecimento para apoiar estratégias de conservação mais eficazes.


Felizmente, nas últimas décadas, o desenvolvimento de tecnologias de biotelemetria e biologging permitiu acompanhar estes animais no seu habitat natural através de pequenos dispositivos eletrónicos. O desafio passou a ser outro: transformar os enormes volumes de dados gerados por estas tecnologias em conhecimento ecológico útil.


Como sempre tive um grande interesse pela análise de dados e pela biologia computacional, vi neste desafio uma oportunidade de combinar essas competências com a minha paixão pelo oceano. O projeto acabou por surgir precisamente dessa interseção entre tecnologia, ecologia e conservação, procurando desenvolver novas abordagens analíticas que nos permitissem compreender melhor o comportamento e os movimentos da megafauna marinha e, dessa forma, contribuir para a sua proteção.


  • Ao longo deste trabalho qual foi a sua maior alegria?


É difícil escolher apenas um momento, por isso destacaria três momentos que foram particularmente marcantes. O primeiro foi, sem dúvida, o trabalho de campo. Tive o privilégio de mergulhar com tubarões-baleia nos Açores e de trabalhar de perto com espécies que, até há poucos anos, apenas conhecia através de livros e documentários. São experiências que dificilmente se esquecem e que nos recordam diariamente porque escolhemos esta profissão.


Outro dos aspetos mais gratificantes deste percurso foi a oportunidade de trabalhar com equipas extraordinárias, tanto no Algarve como nos Açores. Tive a sorte de trabalhar com pessoas extremamente competentes e disponíveis, que criaram um ambiente de colaboração, entreajuda e companheirismo.


Por fim, foi muito motivador perceber que o doutoramento não se limitava à tese. Ao longo destes anos consegui obter financiamento para liderar e co-liderar projetos próprios, tanto na investigação científica como na vertente de comunicação de ciência. Ver uma ideia nascer, transformar-se num projeto financiado e produzir impacto foi um dos momentos em que senti que estava a dar os primeiros passos para construir uma carreira científica independente.



  • Que desafios teve de enfrentar e que motivações arranjou para superar os seus problemas?


O maior desafio foi, talvez, aprender a gerir o tempo e a equilibrar as muitas responsabilidades que fazem parte da vida de um investigador em início de carreira. Um doutoramento não é apenas desenvolver um projeto científico: é também realizar trabalho de campo, analisar dados e transformá-los em conhecimento útil, escrever artigos, comunicar ciência, preparar candidaturas, tratar de tarefas administrativas e procurar financiamento. Conciliar tudo isto, sem perder de vista o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal, exige uma capacidade de organização e adaptação que se vai construindo ao longo do percurso.


  • O que ficou por explorar?


Muitas questões permanecem em aberto. Acho que este é um dos aspetos mais interessantes do processo científico: cada resposta encontrada acaba frequentemente por levantar novas perguntas e revelar novas áreas por explorar. Ao longo do doutoramento conseguimos compreender melhor os movimentos e o uso do habitat de várias espécies de megafauna marinha, mas continuamos a saber muito pouco sobre os processos ecológicos que estão por detrás desses padrões e sobre a forma como estas espécies irão responder às rápidas alterações que os oceanos estão a enfrentar.


Há também um enorme potencial para expandir a aplicação destas tecnologias a mais espécies e ecossistemas. À medida que conseguimos recolher volumes de dados cada vez maiores, o desafio deixa de ser apenas monitorizar os animais e passa também por transformar essa informação em conhecimento útil para apoiar decisões de conservação e gestão mais eficazes.



  • Quais serão os próximos passos da sua carreira?


Os próximos passos passam, sem dúvida, por continuar a desenvolver uma carreira dedicada à investigação em ecologia marinha e conservação. Conto em breve iniciar funções como Investigador Júnior, dando continuidade ao trabalho desenvolvido durante o doutoramento e aprofundando as novas questões que dele surgiram. Acredito que os próximos anos passarão precisamente pelo desenvolvimento de novas abordagens analíticas que permitam extrair ainda mais informação destes dados. Espero poder continuar a contribuir não só para responder a novas questões ecológicas, mas também para desenvolver ferramentas que facilitem esse trabalho a outros investigadores.


Paralelamente, gostaria de continuar a investir na comunicação de ciência, explorando novas tecnologias digitais para aproximar a investigação ecológica da sociedade e dos decisores políticos.


  • O que o levou a concorrer a este Prémio?


A decisão de concorrer surgiu, sobretudo, como uma oportunidade de dar visibilidade ao trabalho desenvolvido ao longo do doutoramento e à importância da ecologia do movimento na conservação da megafauna marinha. Acho que este prémio é uma iniciativa importante, por reconhecer o contributo de jovens investigadores e por aproximar a investigação científica da sociedade, algo fundamental para valorizar a ciência e incentivar novas gerações de investigadores a seguir uma carreira na área da Ecologia.


  • Que impacto espera obter com este resultado?


Espero que este resultado contribua para reforçar o reconhecimento da importância da investigação em ecologia marinha e conservação, destacando o papel da ecologia do movimento e das novas tecnologias na compreensão e proteção da megafauna marinha. Gostaria também que servisse como incentivo à adoção de práticas de ciência aberta na ecologia, demonstrando o valor da partilha de dados e do desenvolvimento de ferramentas de software aberto para promover uma ciência mais colaborativa e acessível.


  • O que gostaria de ver na SPECO que impulsionasse os jovens a seguir investigação em Ecologia?


Acredito que a SPECO pode ter um papel importante no reforço do apoio aos jovens investigadores em Ecologia, promovendo oportunidades de networking, mentoria e partilha de experiências entre diferentes gerações de ecólogos. Seria também muito positivo apostar em iniciativas que aproximem a Ecologia das novas tecnologias, através de ações de formação em áreas como programação, análise de dados ou comunicação de ciência. Estas competências são cada vez mais importantes para responder aos desafios atuais da investigação ecológica e podem abrir novas oportunidades para os jovens investigadores.


  • Como tenciona contribuir para aumentar a visibilidade da SPECO?


Acredito que posso contribuir para aumentar a visibilidade da SPECO através da divulgação das suas iniciativas e do papel que desempenha na promoção da Ecologia em Portugal. Estarei sempre disponível para colaborar na disseminação da investigação ecológica junto de diferentes públicos, procurando também explorar novas formas de comunicação, incluindo formatos multimedia e ferramentas digitais.


  • Que conselhos gostaria de dar aos jovens estudantes de Doutoramento?


Durante um doutoramento, é essencial aprender a confiar nas próprias capacidades e desenvolver progressivamente autonomia enquanto investigador. Os orientadores têm um papel fundamental neste percurso, mas esta é também uma fase em que devemos aprender a tomar decisões, questionar, explorar novas ideias e construir a nossa própria identidade científica.


Diria também para não deixarem que o doutoramento consuma todo o vosso tempo e energia. Apesar de ser uma etapa exigente, há muito mais para além da investigação. Preservar um equilíbrio saudável e reservar tempo para outros interesses é fundamental para manter a motivação, a criatividade e o bem-estar ao longo de todo o percurso.


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