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Prémio de Doutoramento 2022 | Joana Bernardino, 1ª Classificada



Joana Bernardino, investigadora no CIBIO (Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos) da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, foi a primeira classificada dos prémios de doutoramento em Ecologia 2022. O seu trabalho, intitulado “Melhoria da monitorização e mitigação da mortalidade de aves por colisão com linhas eléctricas”, teve como principal objetivo avançar de forma significativa o conhecimento sobre a colisão de aves com linhas eléctricas e desenvolver os métodos utilizados para quantificar e mitigar este impacte. No conjunto da investigação realizada, destacam-se os seguintes resultados:


- Uma revisão da investigação realizada nos últimos 40 anos, a nível mundial, sobre os factores relacionados com a biologia e ecologia das espécies, com as características do habitat e da linha eléctrica, que explicam a colisão das aves. Foi ainda efectuado um levantamento das medidas de mitigação existentes e identificadas as lacunas de conhecimento que subsistem, assim como oportunidades de investigação.


- Realização de uma meta-análise dos estudos, a nível mundial, que avaliaram a eficácia da sinalização dos cabos da linhas elcéctricas, enquanto forma de aumentar a sua visibilidade para as aves e reduzir o risco de colisão. Além da avaliação global do desempenho dos dispositivos anti-colisão, nesta meta-análise foram avaliados, pela primeira vez, os factores que podem influenciar a sua eficácia, nomeadamente a tipologia de linha, o habitat atravessado pela mesma (como proxy das espécies aí presentes), e as características dos próprios dispositivos.


- Desenvolvimento de dois estudos que permitiram aumentar a compreensão sobre os factores ambientais e metodológicos responsáveis por enviesamentos nos trabalhos de quantificação da mortalidade de aves em linhas eléctricas. Entre outras tarefas, foram realizadas amostragens de campo que permitiram, através de armadilhagem fotográfica, compreender melhor a dinâmica das espécies necrófagas responsáveis pelo desaparecimento dos cadáveres de aves que colidem com as linhas e o seu impacto nos estudos de monitorização da mortalidade.



Os resultados desta investigação têm aplicação imediata nas práticas das empresas de Transporte e Distribuição de electricidade, no nível da escolha das melhores soluções para mitigar os impactes dos seus projectos na avifauna, assim como para a sua monitorização. Um exemplo disso é a incorporação dos resultados deste doutoramento no novo “Manual para a Monitorização de Impactes de Linhas de Muito Alta Tensão sobre a Avifauna e Avaliação da Eficácia das Medidas de Mitigação”. Este manual de boas práticas resultou de um trabalho colaborativo entre o CIBIO, o ICNF - Instituto da Conservação da Natureza e Florestas e a REN - Rede Eléctrica Nacional, S.A.


À conversa com esta investigadora a SPECO tentou saber um pouco mais sobre a motivação que a levou a assumir este desafio, os problemas e oportunidades que viveu, e que repercussões poderá ter este prémio alcançado.



1 | Quais as bases do desenvolvimento do seu trabalho?

Durante vários anos trabalhei, enquanto bióloga, na área de consultoria ambiental, dedicando-me maioritariamente à realização de estudos de avaliação de impacte ambiental e monitorizações de projectos energéticos, como parques eólicos e linhas eléctricas. Nesses anos apercebi-me da importância e necessidade de desenvolver investigação aplicada nessa área, por forma a compreender melhor os impactes dessas infraestruturas e a melhorar as metodologias existentes para monitorizar e mitigar os seus impactes na biodiversidade, em particular na avifauna. Neste doutoramento tive então a oportunidade de fazer isso mesmo, mais concretamente, de me debruçar sobre a problemática da colisão de aves com linhas eléctricas e de tentar compreender os factores ecológicos e outros que explicam esses eventos de mortalidade e a eficácia das medidas de mitigação existentes. Desenvolvi também investigação no sentido de aumentar a compreensão sobre os factores ecológicos e metodológicos responsáveis por enviesamentos nos trabalhos de quantificação da mortalidade de aves em linhas eléctricas, como seja a remoção dos cadáveres das aves por espécies necrófagas.


2 | Alegrias e sucessos durante o seu projecto

O facto de perceber que a investigação que desenvolvi teve aplicabilidade imediata na melhoria das práticas da REN - Rede Eléctrica Nacional, S.A., a empresa responsável pela gestão da rede de transporte de energia elétrica em Portugal deu-me enorme alegria. Vários resultados e recomendações do meu trabalho de doutoramento foram integrados no novo “Manual para a Monitorização de Impactes de Linhas de Muito Alta Tensão sobre a Avifauna e Avaliação da Eficácia das Medidas de Mitigação”, que resultou de um trabalho colaborativo entre o meu centro de investigação, o CIBIO - Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos, a própria REN e o ICNF (Instituto da Conservação da Natureza e Florestas).

A nível mais pessoal, o facto de ter conseguido concluir o doutoramento nos 4 anos, tal como me tinha proposto, e apesar de vários constrangimentos, como a pandemia COVID-19, foi também um motivo de satisfação.


3 | Que desafios encontrou, e como os superou?

Grande parte do meu doutoramento baseou-se na compilação e análise conjunta de resultados de estudos realizados em Portugal e internacionalmente. São estudos que, muitas vezes, seguiram abordagens metodológicas, esforços de amostragem e formas muito distintas de relatar os resultados, o que torna extremamente difícil a integração dos resultados. Apesar das dificuldades, estava ciente da importância de olhar para esses estudos de forma integrada e de potenciar ao máximo os resultados de cada estudo individualmente.



4 | O que ficou por explorar?

Várias questões ficaram por explorar, entre elas, quantificar o contributo relativo dos diferentes factores biológicos, ecológicos e relacionados com as características da própria infraestrutura que explicam a colisão das aves com os cabos aéreos. Saber quais os factores que contribuem mais, dependendo das circunstâncias da linha eléctrica, será extremamente importante para melhor direccionar as medidas de minimização. Depois, há também a necessidade de desenvolver e testar novas medidas de minimização, uma vez que as existentes parecem ser ainda insuficientes para minimizar eficazmente o impacte das linhas eléctricas em algumas espécies particularmente suscetíveis à colisão, como é o caso da abetarda e do sisão.


5 | O que está em vista num futuro próximo?

Actualmente estou a dar continuidade à minha investigação de doutoramento, integrada na equipa da “Cátedra REN em Biodiversidade”. Nos próximos anos pretendo consolidar a minha experiência e reconhecimento internacional enquanto investigadora na área de monitorização e mitigação de impactes de infraestruturas energéticas na biodiversidade. Pretendo também ter um papel activo na transferência desse conhecimento para as empresas energéticas, promovendo a melhoria das suas práticas, e também para as empresas de consultoria e autoridades ambientais que, respectivamente, elaboram os estudos de avaliação de impacte ambiental e aprovam os projectos no terreno.



6 | Porquê concorrer ao Prémio de Doutoramento da SPECO?

Soube do prémio através de colegas que ganharam em edições anteriores, como é o caso da Vanessa Mata e do Ricardo Rocha, e fui incentivada a concorrer pelo meu orientador principal, Dr. Francisco Moreira (CIBIO).


7 | Quais os impactos deste prémio?

Esta distinção, em particular o facto de ter recebido o 1º prémio, é um importante reconhecimento do trabalho que desenvolvi ao longo do doutoramento e que me ajudará a divulgá-lo a um público mais alargado. A distinção será também uma mais-valia para o meu curriculum.



8 | Que conselhos pode dar à SPECO?

Penso ser muito importante mostrar como a investigação em ecologia pode ter aplicabilidade imediata, em particular se for desenvolvida com o intuito de resolver problemas da sociedade e em cooperação com outras áreas de investigação, que no meu caso foi a área de Avaliação de Impacte Ambiental.


9 | Como vai contribuir para aumentar a visibilidade da SPECO?

A atribuição deste prémio será divulgada pelo CIBIO através da sua newsletter interna, mas também nos seus canais de comunicação para o exterior. Será colocada uma notícia no seu site da “Cátedra REN em Biodiversidade”, o que permitirá divulgar o prémio e a própria SPECO entre biólogos e outros especialistas que trabalham na área de avaliação de impacte ambiental. O gabinete de comunicação da REN - Rede Eléctrica Nacional, S.A. irá também divulgar este prémio entre os seus colaboradores e parceiros.


10..| Que conselhos deixa aos jovens e futuros ecólogos?

Em termos práticos, diria que é importante definirem milestones para cada ano do doutoramento, para poderem controlar se estão a ocorrer desvios e, se sim, poderem atempadamente discutir com os vossos orientadores a melhor forma de corrigir e ultrapassar a situação.

Em termos mais gerais, julgo ser importante garantir a aplicabilidade, a curto e médio prazo, da investigação que estão a desenvolver e divulgar a mesma às pessoas ou entidades que podem usufruir dessa investigação. Isso irá certamente valorizar os outputs do doutoramento e poderá ser o ponto de partida para o estabelecimento de colaborações futuras e para o desenvolvimento de projectos de investigação multidisciplinares e de maior impacto.



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